SOMOS REFÉNS DA DESIGUALDADE SOCIAL

SOMOS REFÉNS DA DESIGUALDADE SOCIAL

O Pnud (Programa das Nações Unidas para Desenvolvimento), um dos braços da ONU (Organização das Nações Unidas), acaba de divulgar novo ranking mundial do IDH (Índice de Desenvolvimento Humano).

Não surpreende que o Brasil tenha perdido cinco posições no levantamento, passando do 79º para o vexatório 84º lugar, entre 189 países. De acordo com o Pnud, o IDH brasileiro subiu no primeiro ano do governo Jair Bolsonaro, passando de 0,762, em 2018, para 0,765, em 2019. Mesmo assim, recuamos – e muito – neste quesito.

Isso reforçou o escândalo de sermos um País profundamente desigual, mesmo assumindo a posição de décima-segunda economia do planeta em PIB (Produto Interno Bruto) – fomos a nona até 2019, aliás, mas perdemos três posições por força da política econômica desastrada adotada no País, nos últimos anos.

É importante explicar o que significa este recuo do Brasil em relação ao IDH. O índice de Desenvolvimento Humano mensura o progresso dos países em três itens: saúde, educação e renda. Quanto mais próximo de 1, mais alto é o desenvolvimento humano, caso da Noruega, líder do ranking que tem 0,957 na pontuação.

Na prática, a posição do Brasil na pesquisa do Pnud significa que estamos fazendo mais do mesmo. Ou seja: reafirmando o DNA da desigualdade que sempre tivemos. Não é coisa recente. O Brasil começou errado neste terreno quando, ainda colônia, abrigou os maiores latifúndios do mundo – as capitanias hereditárias, entregues nas mãos de 15 nobres protegidos do rei D. João III com o velado objetivo de povoar a colônia e dividir a administração colonial.

Lá, no domínio da casa grande & senzala, praticava-se toda sorte de atos de exclusão social, desigualdade na distribuição das riquezas, violência real e simbólica e preconceito. Nos séculos seguintes, estas práticas foram atenuadas pelas leis (especialmente pela Constituição Federal de 1988), mas se mantiveram exatamente onde deveriam ter sido extirpadas: nos costumes e no cerne da cultura brasileira.

Isso explica o apoio popular ao festival de horrores cometidos por todos os mandatários da Nação que nunca priorizaram a distribuição de renda e a justiça social. A desigualdade social sobreviveu aos séculos como prática das elites, interessadas em manter a base da pirâmide social exatamente onde sempre esteve, mas também com a chancela de milhões de alienados políticos que nunca viram problema nenhum nisso.

Interessante que a pesquisa do Pnud tenha sido divulgada no mesmo dia em que o DataFolha divulgou sondagem apontando que 52% dos entrevistados consideram que o presidente Jair Bolsonaro não tem nenhuma culpa pelas mortes geradas pela covid-19 e que 37% consideram seu governo ótimo ou bom (58%, entre os empresários). Quase inacreditável que estes números existam, depois do desastre da gestão da pandemia proporcionado por este governo, responsável em grande parte pelas mortes de 180 mil brasileiros.

Mostram que, de fato, será preciso muito mais que a vergonha dos números para fazer o Brasil ocupar posições respeitáveis na pesquisa do Pnud. A cegueira de parte expressiva dos brasileiros, ao que parece, não tem cura. E, com ela, jamais será possível forçar as autoridades a uma mudança drástica nas políticas públicas de inclusão de renda e de redução das desigualdades. Somos reféns da desigualdade social, mas também da ignorância e da maldade de muitos. Triste País o que temos.

Foto: Carolina Antunes / PR

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