RODRIGO MAIA DESONRA O CARGO QUE OCUPA

RODRIGO MAIA DESONRA O CARGO QUE OCUPA

O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM/RJ), termina seu segundo mandato no comando da Casa, em 31 de janeiro, sem deixar saudades. Embora pose de parlamentar moderado, que faz contrapeso aos arroubos fascistas do presidente Jair Bolsonaro, Maia já deu provas de que não nega sua origem fisiológica e oportunista, forjada na escola do seu pai, o ex-prefeito do Rio de Janeiro Cesar Maia – condenado pela 21ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Rio, em agosto, por improbidade administrativa.

Não faltam provas disso. Sua omissão diante dos inacreditáveis 56 pedidos de impeachment de Bolsonaro é a maior delas. A insistência com que o presidente da Câmara se recusou a dar início aos processos de afastamento do capitão, apesar das pressões da sociedade e da fileira de crimes de responsabilidade cometidos pelo ocupante do Palácio do Planalto, beira o absurdo.

Soa inacreditável que Maia tenha dito que a abertura do processo de impeachment do presidente “tiraria do foco” do combate à Covid-19. Fazer este tipo de afirmação, mesmo sabendo que quase 190 mil pessoas morreram em parte devido à absoluta incompetência e irresponsabilidade da postura negacionista de Jair Bolsonaro e de seus mais ferrenhos ministros, ganha áreas de fanfarrice.

Mais: coloca-o na posição nada agradável de cúmplice do genocídio provocado pela omissão das autoridades federais brasileiras, que ainda sequer licitaram as seringas necessárias à aplicação das 300 milhões de doses destinadas aos brasileiros, enquanto os EUA devem concluir o processo já em fevereiro.

A verdade é que Maia, mesmo discordando de Bolsonaro em vários aspectos e em guerra aberta com o ministro Paulo Guedes (Economia), manteve engavetados os pedidos de impeachment contra o presidente para não melindrar o Centrão e os partidos alinhados ao Governo Federal, com o nada patriótico propósito de se reeleger presidente da Casa pela quarta vez. Só não atingiu seu intento por força e graça do STF (Supremo Tribunal Federal), que barrou a sanha de poder de Maia na semana passada.

Mas ainda pesa sobre os ombros do presidente da Câmara o fato de ter sido responsável pela finalização das reformas neoliberais impostas por Michel Temer e Jair Bolsonaro, ao custo – altíssimo – da perda de direitos dos trabalhadores. Alinhado desde sempre aos governos de direita e de extrema direita implantados no Palácio do Planalto na era pós-Dilma Rousseff, embora não abertamente, Maia encampou a agenda privatista e excludente imposta pelos poderosos, que prosseguem querendo o mesmo de sempre: reduzir o tamanho do Estado e os direitos dos trabalhadores para ganhar mais dinheiro, não sem a cumplicidade de parlamentares e magistrados com o mesmo propósito.

Com este histórico, Rodrigo Maia desonra o posto que já foi ocupado pelo “pai das Diretas Já”, o gigante Ulysses Guimarães. Com sua reeleição impedida, inviabiliza, ao mesmo tempo, seu propósito de alçar vôos mais altos na hierarquia da República. Ainda que tenha se rebelado com Bolsonaro a ponto de apoiar o candidato indesejado pelo presidente na sua sucessão, o deputado não se isenta da responsabilidade que a História vai lhe atribuir pelos erros cometidos no passado. Maia já vai tarde. Melhor para o Brasil que seja assim.

Foto: Marcelo Camargo / Agência Brasil

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