NEYMAR SIMBOLIZA A DECADÊNCIA MORAL DO FUTEBOL BRASILEIRO

NEYMAR SIMBOLIZA A DECADÊNCIA MORAL DO FUTEBOL BRASILEIRO

Neymar Junior está longe de ser o principal jogador do País e dono da camisa 10 da seleção comandada pelo técnico Tite; é o próprio símbolo do que existe de pior no futebol brasileiro, em termos morais.

A decisão do jogador de promover uma festa de réveillon para supostas 500 pessoas em sua mansão no município de Mangaratiba, no Litoral do Rio de Janeiro, durante a pandemia, é apenas a gota d´água da decadência da paixão nacional. Mas não a única.

Até as conchas das praias de Mangaratiba sabem que é no mínimo infame a atitude do atacante do PSG e da esquadra canarinho de comemorar a passagem do ano com uma mega aglomeração exatamente na mesma semana em que o Brasil lamenta a vergonhosa estatística de 7,5 milhões de casos e 191 mil mortes causadas pela covid-19.

O desprezo de boleiros como Neymar pelo País e seu gosto pela bazófia só não são maiores que os de muitos dirigentes de grandes clubes do futebol brasileiro. Fato inconteste quando se sabe que, segundo levantamento deste ano da Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional, somente os times da Série A do Campeonato Brasileiro devem mais de R$ 2,8 bilhões à União. Apenas como curiosidade: caso a dívida fosse paga, teria sido suficiente para a compra de aproximadamente 3 milhões de cestas básicas em São Paulo, em 30 de novembro de 2020, ao custo unitário de R$ 979,18.

Mas a fanfarronice dos jogadores e cartolas de futebol que são craques em insensibilidade vai além. Invade também o lodoso terreno da Política. Foi assim na última semana de dezembro, quando o Santos (curiosamente, o time que revelou Neymar Jr.) promoveu jogo beneficente com a presença do presidente Jair Bolsonaro – o mesmo que, entre outras cretinices, declarou que a covid-19 era uma “gripezinha” e afirmou, na mais recente das suas estúpidas declarações sobre o tema, que, dadas as dimensões do Brasil, os fabricantes de vacinas é que deveriam procurar o governo e não o contrário.

O mesmo nauseabundo tom bajulador já havia sido adotado pela diretoria do Flamengo em fevereiro, quando os dirigentes do então campeão brasileiro fizeram questão de visitar o presidente da República – o homem que, nos seus delírios de populista empedernido de extrema-direita, já usou camisas de 80 clubes de futebol.

Não há nenhum problema no fato de dirigentes de futebol se relacionarem bem com autoridades públicas em situações especiais, como quando governantes decidem prestigiar grandes jogos e/ou competições oficiais; o problema (grave) está no fato de usarem os escudos dos seus times (ignorando inclusive as posições da maior parte das suas torcidas) para fazer proselitismo de um político que, no caso em questão, é o principal responsável pelo agravamento da maior crise sanitária do País, da maior destruição da natureza e do mais torpe ataque à cultura e à educação dos últimos 50 anos no Brasil.

É compreensível e defensável que jogadores como Felipe Melo (Palmeiras) ou técnicos como Renato Gaúcho (Grêmio) exerçam seu sagrado direito de votar e defender Jair Bolsonaro, mas quando comandantes de clubes de futebol se prestam ao papel de promover um político com o perfil autoritário do ocupante do Palácio do Planalto equiparam-se à antiga diretoria da CBD (Confederação Brasileira de Desportos), que permitiu ao ditador general Emílio Garrastazu Médici usar a conquista do tricampeonato da espetacular seleção de 1970 como instrumento de propaganda de seu governo.

Se é injusto dizer que Neymar merece a sofrível seleção, é absolutamente correto dizer que o principal jogador nacional simboliza a decadência moral dos dirigentes e de grande parte dos torcedores do futebol brasileiro. Neymar é, basicamente, a cartolagem de chuteiras. Nada mais justo.

Foto: C.Gavelle / PSG / Fotos Públicas

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