AS LIÇÕES DA SUCESSÃO MUNICIPAL 2020

AS LIÇÕES DA SUCESSÃO MUNICIPAL 2020

Os resultados das urnas têm incrível poder pedagógico para a classe política. Os deste domingo, em especial, para duas forças fundamentais da cena partidária nacional, que ocupam papel central no tabuleiro político desde as eleições presidenciais de 2018:  o bolsonarismo e o petismo.

No primeiro caso, segundo o portal InfoMoney, dos seis candidatos a prefeito apoiados pelo presidente Jair Bolsonaro em seis capitais, quatro foram derrotados já no primeiro turno: São Paulo, Belo Horizonte, Recife e Manaus.

Nas outras duas grandes cidades, Rio de Janeiro e Fortaleza, o cenário é desolador para os bolsonaristas. Em nenhuma delas, os candidatos do ex-capitão do Exército – respectivamente, Marcelo Crivella (Republicanos) e capitão Wagner (PROS) – terminaram o primeiro turno na frente. Para piorar as coisas, Crivella tem uma rejeição de 60%.

Não é pouca coisa. Somada, prevalecendo a lógica das urnas no primeiro turno, a população destas seis cidades atinge quase 28 milhões de pessoas e terá, portanto, papel decisivo nas eleições de 2022.

A desidratação do capital político do presidente da República nas grandes cidades foi atenuada pelo fato de que, com base em dados do Portal UOL, os candidatos das legendas alinhadas ao presidente da República (PP, PSD, DEM, PL, Republicanos, PTB, PSC, Solidariedade, PSL, Avante, Pros, Patriota, PTC, PRTB, PMN, Democracia Cristã, PMB) receberam 51,5 milhões de votos no primeiro turno, realizado neste domingo.

Já os candidatos a prefeito dos sete partidos de oposição a Bolsonaro que venceram as eleições no primeiro turno (PDT, PSB, PT, PV, PCdoB, Rede e PSOL) receberam 22 milhões de votos.

Os números acendem a luz vermelha nas hostes bolsonaristas porque os cinco partidos identificados como neutros ou no mínimo divididos em relação ao bolsonarismo (MDB, PSDB, Cidadania, Podemos e Novo) obtiveram 28 milhões de votos. Somados aos 22 milhões da oposição, temos 50 milhões de votos.

Os dados indicam que o bolsonarismo não só se enfraqueceu, contrariando as previsões de que o presidente seria o grande cabo eleitoral das eleições de 2020, como terá bem mais dificuldades que imaginava para pavimentar sua reeleição, em 2022.

Passemos à análise do cenário da oposição. Além dos já citados 22 milhões de votos que colheu no último domingo, um resultado considerado magro para um grupo que levou um candidato ao segundo turno da sucessão presidencial de 2018, a oposição a Bolsonaro somou 10,8 mil cadeiras nas Câmaras de Vereadores.

Já os 17 partidos praticamente fechados com Bolsonaro, que integram o chamado “Centrão” ou se identificam com a agenda do presidente da República, conquistaram 32 mil vagas nas Câmaras. Os cinco partidos “neutros” atingiram 15,8 mil cadeiras.

Fora isso, com exceção do PSOL – que gerou a grande novidade das eleições, com Guilherme Boulos no segundo turno da disputa em São Paulo – todos os partidos da esquerda emagreceram nas urnas e elegeram menos prefeitos que em 2016.

Os dados indicam o óbvio: a esquerda “autêntica” terá bastante trabalho para conquistar o coração dos moradores dos municípios onde perdeu as eleições, se quiser ser competitiva em 2022 E ainda terá que solucionar um impasse adicional: decidir os melhores nomes na batalha da sucessão de Bolsonaro.

Isto porque, embora permaneça sendo o partido com maior número de filiados do Brasil (1.535.390), o PT já deixou de ser hegemônico em muitas cidades, mesmo onde nasceu, no ABC Paulista. E ainda perdeu feio para o PDT em número de cidades que governará a partir de 2021 – 311 a 178.

Com Boulos em franca ascensão e o pedetista Ciro Gomes tendo domínio sobre 133 cidades a mais que o petista Luiz Inácio Lula da Silva, a briga para ver quem ocupará o cerne da oposição em 2022 será acirrada.

O cenário, enfim, está truncado para o bolsonarismo e o petismo. Ambos devem torcer para que, ao sabor dos números deste domingo, as legendas de centro não sepultem seu sonho de voltar ao comando do País em 2022, caso lancem um candidato competitivo na disputa – uma incógnita ainda longe de solução.

Foto: Reprodução / Facebook Guilherme Boulos

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