A POBREZA ASSUSTA TANTO QUANTO A COVID-19

Um antigo problema social se agravou com incrível intensidade, nos últimos anos, e já provoca danos tão graves quanto a pandemia da Covid-19, desafiando os 5,5 mil prefeitos que vão assumir seus cargos, a partir de 1º de janeiro de 2021: a miséria da população brasileira.

Os números falam por si mesmos. De acordo com a ONU (Organização das Nações Unidas), o Brasil deve terminar 2020 com 9,5% da sua população de 221 milhões de habitantes na condição de pobreza extrema. Isto equivale a um contingente de cerca de 20 milhões de pessoas.

De acordo com critério adotado pelo Banco Mundial para países emergentes, como o Brasil, cidadãos nesta condição são os que sobrevivem com renda mensal de, no máximo, R$ 436 por pessoa do domicílio – menos, portanto que o auxílio emergencial de R$ 600 pagos pelo Governo Federal para evitar um agravamento da tragédia social causada pela Covid-19.

Tão grave como o número, em si, é que a miséria que cresce a olhos vistos, nas ruas, nas praças e nas estatísticas. Em 2019, de acordo com a mesma ONU, a taxa de brasileiros abaixo da linha da pobreza era de 5%. Ou seja: em apenas um ano, a Nação quase dobrou o número de miseráveis.

O problema já vinha se agravando em escala global desde o estouro da bolha  imobiliária dos EUA, em 2008, mas se acirrou com a crise econômica e política do Brasil, a partir de 2013, que culminou com o aumento da fome e do desemprego, atingindo hoje 14 milhões de pessoas.

Tanto em termos sociais quanto financeiros, trata-se de uma enorme tragédia social porque estas pessoas vivem nos municípios brasileiros – e não em Brasília, que concentra 55% de tudo o que o País arrecada.

Na pratica, isto significa que quem terá que assumir a gestão deste problema serão as prefeituras, já combalidas pelos seus magros 19% de receita do bolo tributário da União. Para que se tenha idéia do tamanho do problema, apenas em 2020, as prefeituras terão um déficit de R$ 12 bilhões em suas receitas.

Isso porque os municípios tiveram uma redução de receitas de R$ 72 bilhões neste ano, por causa da crise econômica, para uma compensação de R$ 60 bilhões, de acordo com dados fornecidos pela CNM (Confederação Nacional de Municípios).

Basta andar pelas cidades para constatar o problema. Só no Paraná, o Movimento Nacional da População de Rua calcula que existam 11 mil pessoas vivendo nestas condições – ao todo, são mais de 220 mil no Brasil.

Somando-se este contingente aos miseráveis que moram em barracos localizados em áreas de ocupação ou em favelas e à previsível queda de receita dos governos municipais por causa da redução da atividade econômica, tem-se um quadro social caótico. Fruto do descaso com que a população do andar de baixo da pirâmide social foi tratada, desde sempre. Nada surpreendente, no país campeão das desigualdades.

Foto: Jorge Araujo / Fotos Públicas

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *