UMA PANDEMIA DE INCOMPATIBILIDADE NA OPOSIÇÃO

UMA PANDEMIA DE INCOMPATIBILIDADE NA OPOSIÇÃO

Os partidos de oposição ao governo de Jair Messias Bolsonaro estão vivendo seu momento mais delicado – e contraditório – desde o início do mandato do presidente da República, em janeiro do ano passado.

Mesmo com os percentuais cada vez maiores de rejeição ao governo (43%, segundo o Datafolha, em pesquisa divulgada em 28 de maio), a oposição acumula a alta rejeição confirmada pelas urnas com o acirramento de dois graves problemas – ambos convergindo para o risco de comprometimento dos seus planos para a sucessão presidencial de 2022.

O primeiro deles é o agravamento das divergências entre os partidos em torno dos movimentos criados com o objetivo de condenar a escalada autoritária e/ou pedir o impeachment de Bolsonaro, como os grupos “Somos 70%” e “Basta!”. Principal legenda da oposição, o PT deu de ombros a ambos pelo motivo de sempre: a sua recusa em atuar em frentes políticas nas quais não seja o protagonista.

Formalmente, porém, o motivo da recusa foi outro. Em entrevista ao portal UOL, no dia 2 de junho, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva – falando, obviamente, em nome da legenda – foi taxativo. Disse que não chancelaria nenhuma frente que considera contrária aos interesses dos trabalhadores, ainda mais composta por integrantes do grupo que defendeu o impeachment de Dilma Rousseff, em 2016.

Criado pelo economista Eduardo Moreira, o “Somos 70%” cresceu e se multiplicou, mas permanece visceralmente vinculado ao importante influencer que o criou – alguém que revela cada vez mais alinhamento com o PDT de Ciro Gomes – hoje, principal adversário dos planos de Lula de devolver ao PT o comando do País. Não é, porém, uma frente formada por viúvas da ditadura militar e nem por golpistas alinhados à turma de Michel Temer, que tirou Dilma do poder.

Já o “Basta!” é formado por alguns dos advogados, magistrados e juristas mais respeitados do País. Entre eles, porém, um nome execrado pelas hostes petistas: o jurista Miguel Reale Junior, ex-ministro da Justiça do governo Fernando Henrique Cardoso (outro adversário histórico do PT) e um dos propositores da denúncia que levou ao impeachment de Dilma Rousseff. Porém, há outros nomes de respeito no grupo não alinhados ao PSDB, o que enfraquece os argumentos dos críticos ao movimento. 

Mas houve ainda outro motivo relevante pelo qual este distanciamento foi agravado: a ausência de consenso, na oposição, quanto à presença dos partidos de esquerda nas manifestações de rua contra Bolsonaro.

Fiel à recomendação de isolamento social, defendida pela OMS (Organização Mundial de Saúde) e pelas autoridades sanitárias, boa parte da esquerda condena as manifestações. Sustenta a narrativa de que isso contradiz sua posição, de base médico-científica, o que enfraqueceria seu discurso e fortaleceria o de Bolsonaro e seus apoiadores – favoráveis ao relaxamento do distanciamento social. 

Considera, ainda, que uma ocupação das ruas agora submeteria os participantes ao risco de demonização do movimento por causa da infiltração de agentes bolsonaristas nos protestos, cujo objetivo seria promover atos de violência e de vandalismo durante e após os atos. Toma como base o que ocorreu em Curitiba, em 03 de junho, quando pessoas sem vínculo com os organizadores de um movimento contra o racismo promoveram arruaças na capital do Estado. 

Esta posição, porém, está longe de ser consensual. Durante entrevista à imprensa, na sexta-feira (05/06), o candidato a presidente do PSOL em 2018, Guilherme Boulos, defendeu a participação na legenda e da esquerda nas manifestações. Adotou um argumento taxativo: é preciso reagir ao avanço do autoritarismo e à ocupação de espaços pelos apoiadores de Bolsonaro. E reagir nas ruas, mas com respeito às regras e distanciamento. Marcação de posição ostensiva, enfim.

Lula não é o único responsável por esta distopia oposicionista. Na mesma semana em que o ex-presidente criticou os movimentos, Ciro Gomes deu entrevista à Carta Capital dirigindo palavrões ao que classifica como “lulopetistas”. Fez sua parte para ampliar o racha das duas legendas.

Naturalmente, as posições de Lula e de Ciro agravaram a divisão da oposição a Bolsonaro e tornaram mais distante o sonho de muitos integrantes da esquerda de formação de uma frente ampla e única contra o presidente da República, em 2022. É cedo para se afirmar se estas divergências serão superadas. De um jeito ou de outro, porém, a direta e a extrema-direita agradecem.

Fotos: montagem. créditos: Instituto Lula; e José Cruz / Agência Brasil

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