UM NOVO GOLPE CONTRA OS PARTIDOS BRASILEIROS

UM NOVO GOLPE CONTRA OS PARTIDOS BRASILEIROS

Os brasileiros que acompanham o noticiário político estão testemunhando, não sem surpresa, o tom inacreditavelmente agressivo adotado nas trocas de acusações disparadas entre seis dos mais importantes representantes de três grandes partidos nacionais.

O primeiro caso envolve o líder do PSL na CâmaraFederal, Delegado Waldir (GO), e o presidente Jair Bolsonaro. Irritado com a articulação do presidente da República para tirá-lo do posto, o deputado – outrora integrante do baixo clero da Casa – ameaçou “implodir” Bolsonaro (a quem classificou de “vagabundo”), com o uso de graves denúncias. 

O segundo episódio tem como atores os deputados federais do PSL paulista Eduardo Bolsonaro e Joice Hasselmann. Ambos dispararam fortes (e infantis) críticas mútuas depois da decisão, tomada pelo presidente Jair Bolsonaro, de substituir a deputada da liderança do partido no Congresso Nacional por Eduardo Gomes (MDB/TO). 

Bombásticas, as duas trocas de acusações sangraram o PSL e respingaram nas demais legendas da base de apoio do presidente da República. Com isso, fragilizaram ainda mais um governo que em apenas 10 meses, segundo o Ibope, conseguiu a inédita proeza de testemunhar o aumento da sua rejeição de 19% para 34%. 

O terceiro caso envolve o ex-presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o ex-ministro Ciro Gomes (PDT), bem como seus aliados. Na batalha virulenta que travam pelo protagonismo da oposição ao governo Bolsonaro, de olho na sucessão presidencial de 2022, ambos trocaram ofensas. 

Repetiram, assim, prática adotada já desde das eleições do ano passado, quando Ciro se recusou a assumir posição explícita de apoio ao ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad (PT) no segundo turno da eleição presidencial – e, por isso, foi acusado pelos petistas de contribuir para a vitória de Bolsonaro.  

Nesta guerra de narrativas entre PT e PDT, ambos indicaram a enorme dificuldade da execução do sonho de muitos militantes e intelectuais alinhados aos partidos de esquerda: a formação de uma grande frente de legendas da oposição – que incluiria ainda PSOL PCdoB, PSB e talvez a Rede – para enfrentar Bolsonaro nas eleições presidenciais de 2022, daqui a três anos. 

Independentemente da procedência das acusações e da orientação ideológica de PSL, PT e PDT, este artigo se ocupa de outro aspecto da polêmica: o desgaste da imagem dos políticos brasileiros e, por extensão, dos partidos. Não é, exatamente, um fato novo. Longe disso. Política, para muitos, é sinônimo de corrupção. Generalização infantil e profundamente equivocada, mas ainda assim simbólica do pensamento do brasileiro médio sobre seus políticos e partidos. 

Os números provam isso. A última pesquisa divulgada pelo Instituto DataFolha, em abril deste ano, apontou que 65% dos brasileiros não se identificam com nenhum partido. Embora PSL e PT tenham aumentado seu número de filiados, após as eleições de 2018, ainda sofrem com uma grande rejeição da sociedade. A demonização da Política e dos partidos está arraigada na Nação. 

Em um artigo escrito em outubro em 2015, o cientista político argentino Andrés Malamud apontou esta fragilidade das legendas nos seguintes termos: “(Na Política), prevalecem as lideranças em popularidade, independente dos partidos”. Ou seja: no atual cenário da Política, pessoas são maiores que partidos. Ainda que estejam em campos ideológicos distintos, Lula e Bolsonaro são exemplos disso.  

A troca de acusações entre as lideranças apontadas acima agrava este quadro porque desloca as atenções e o eixo do debate para mesquinharias da Política identificadas com interesses pessoais, ao sabor das vaidades alheias, e não ao que deveria remeter: as posições ideológicas e programáticas das legendas, que realmente interessam ao eleitorado consciente.

Neste sentido, não deixa de ser um novo golpe contra os partidos brasileiros, que aumenta a insatisfação do eleitorado e, o que é pior, dá margem ao surgimento de outsiders da Política sem nenhum compromisso com uma agenda de desenvolvimento nacional popular e democrática. A hora é de as nossas principais lideranças mudarem sua postura. E já. O Brasil não suportará mais novas aventuras eleitorais, como tivemos em 2018, tanto no Executivo quanto no Legislativo.

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