SOBRE PARASITAS E CÍNICOS

SOBRE PARASITAS E CÍNICOS

O ministro da Economia, Paulo Guedes, está se destacando no Governo Federal por uma característica que nada tem a ver com o seu papel: o cinismo. Homem a serviço do setor privado no cargo de ministro da Economia, que enriqueceu especulando no mercado financeiro durante o tempo em que atuou na Pactual DTVM, Guedes coleciona um rol de frases capazes de corar os rostos até dos mais ferrenhos neoliberais.

A última delas foi seu ataque aos servidores públicos, que classificou de “parasitas do Estado”. A frase foi negada um dia depois, com a desculpa de que a imprensa distorceu sua declaração e usou-a fora do contexto em que foi dita. Diante da péssima repercussão da frase, Guedes apressou-se em dizer que usou-a referindo-se aos servidores públicos que recebem aumentos automáticos de salários – o que segundo ele, compromete o limite de gasto com pessoal imposto pela LRF (Lei de Responsabilidade Fiscal) aos Estados e Municípios.

Não é a primeira vez que o ministro da Fazenda recua em suas costumeiras e infelizes declarações. Foi assim também quando Guedes cunhou a seguinte pérola durante viagem aos EUA, em novembro, em resposta à ocorrência de uma possível radicalização dos protestos de rua no Brasil contra o governo do presidente Jair Bolsonaro: “Não se assustem se alguém pedir o AI-5”.

Guedes não é, porém, apenas um boquirroto. É um cínico. Foi o economista Eduardo Moreira o primeiro a denunciar este defeito do ministro. Em Português cristalino, Moreira lembrou que o mesmo governo que critica os gastos públicos desperdiça inacreditáveis R$ 400 bilhões em juros da dívida pública. E se esquece que os 12 milhões de servidores gastam R$ 700 bilhões para manter outros 50 milhões de brasileiros. Não são os servidores públicos os parasitas, portanto.

Se parte deles assume esta característica, porém, a honestidade intelectual que o ministro não tem deveria lembrá-lo que o atual governo é um dos principais responsáveis por este defeito. Afinal, foi o Palácio do Planalto o autor do projeto – já aprovado pelo Congresso Nacional – que reestruturou as carreiras dos militares e lhes garantiu aumento que custará ao País R$ 86,8 bilhões nos próximos 10 anos. Mais: embora correspondam a apenas 1% do total de aposentados, os militares representam 15% do déficit da Previdência – um estrondoso prejuízo de R$ 43,8 bilhões.

No âmbito dos Estados e Municípios, a frase do ministro soa igualmente cínica. Embora seja defensor do pacto federativo, o Governo Federal se recusa a abrir mão de sua receita em benefício dos Estados e Municípios. Não é pequena esta distorção. Enquanto a União fica com 58% de tudo o que o País arrecada, os Estados recebem 23% e os municípios, apenas 19%.

Não bastasse isso, contraditoriamente, o Governo Federal quer que os Estados abram mão de suas receitas quando propõe que os governadores reduzam o ICMS (Imposto sobre a Circulação de Mercadorias) sobre os combustíveis. Em um cenário de grave crise fiscal dos Estados, a proposta soa como disparate.

Polemista, Guedes é um dos ministros mais boquirrotos do governo, o que conflita com a postura essencialmente técnica e discreta exigida para o cargo. O que não se sabia é que, além de tudo, o homem forte do governo Bolsonaro é um hipócrita que, em defesa de um neoliberalismo patológico, ignora a realidade e ofende trabalhadores do serviço público gratuitamente. É um péssimo caminho para a conclusão das reformas que o ministro propõe.

Foto: Agência Brasil

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