POR UM BRASIL COM MENOS CARIDADE – E MAIS JUSTIÇA SOCIAL

POR UM BRASIL COM MENOS CARIDADE – E MAIS JUSTIÇA SOCIAL

Trafego na contramão da maioria, quando o assunto são as festas de final de ano. Sou dos que respeitam, mas não pintam com as tintas da sacralidade, os rituais de Natal e do ano novo. Penso que o povo tem o direito de festejar – e eu de respeitar suas escolhas. Não é culpa do meu agnosticismo. Nem do calendário. Nem do Papai Noel. Menos ainda, claro, de Jesus. Talvez seja minha rabugice. Mas insisto que não, no textão que ofereço aos leitores e leitoras.

Não é de hoje que alimento um sentimento insuperável de birra por dezembro. Penso assim desde pequeno, quando passeava com meus pais pelos corredores forrados de vermelho e branco, velhinhos fantasiados de Papai Noel, renas e neve fakes das lojas que frequentávamos. É uma desconfiança antiga e provavelmente incurável, feito doença hereditária da alma.

Acho bacana que as pessoas larguem a couraça muscular do caráter, que as torna frias o ano todo, para ganharem rostos menos sisudos em dezembro. Gosto da confraternização entre famílias, amigos e colegas de trabalho que marca dezembro.  Da crença ingênua das crianças em Papai Noel. Da pausa na guerra contra os inimigos e desafetos. Dos comerciais de TV que nos lembram o tempo todo que somos – ou deveríamos ser – solidários.

O problema é outro. Respeito todas as tribos, cores, valores. Mas tenho reservas em relação ao Natal e ao réveillon. Muitas e várias. Todas têm as mesmas causas. Primeiro, o consumismo – de comida e de presentes. Depois, a desonestidade intelectual de muitos – a tal hipocrisia.

Começo pelo problema da comilança. Fico muito incomodado quando penso que, enquanto milhões de brasileiros vão comer até passar mal na ceia de Natal e no réveillon, outros tantos milhões não vão comer coisa nenhuma. Sem exagero. E serão muitos. Temos cinco milhões de famintos, segundo relatório divulgado em julho pela FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura).

Fora isso, 13,5 milhões de pessoas sobrevivem no Brasil com até R$ 145 mensais, o que as inclui na condição de extrema pobreza, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Vistos nesta perspectiva, jantares nababescos e abusos gastronômicos no Natal soam como afronta aos miseráveis.

Isto tudo no País que, segundo o Ministério da Agricultura, é o terceiro maior exportador de alimentos do mundo, com inacreditáveis 232,6 milhões de toneladas na safra 2017/18. Perdão, mas se acha que não tem nada com isso e considera natural que o País com maior área agricultável do planeta tenha tanta gente passando fome, quem sabe porque pense que os famintos são um bando de vagabundos, você não tem cérebro e nem coração.

A questão da comida envolve outro aspecto tão deprimente quanto o anterior. Acho profundamente triste que as pessoas considerem necessário condenar à morte milhões de animais, na ceia de Natal e no réveillon, para satisfazer sua sanha ensandecida por alimentos. Não sem motivos. 1,67 bilhões de criaturas estão fazendo a festa de milhões de estômagos brasileiros apenas no terceiro trimestre deste ano, segundo relatório de abate de animais do IBGE. O número equivale oito vezes a população brasileira. Um show de horrores totalmente desnecessário. As pessoas comem muito em dezembro. Comem mal. E comem sem piedade.

Passo aos excessos de compras. Precisamos mesmo gastar tanto dinheiro dando presentes? Óbvio que sei que isso alimenta o comércio, gera empregos/impostos e enche os olhos sempre que passamos pelas ruas e shoppings nesta época do ano.  

Mas sigo uma lógica fria, cartesiana: quem gosta de nós não precisa de presentes porque gosta de nós. Quem não gosta não os merece. O resto é mimo (no caso dos presentes dados de coração) e puxação de saco (no caso daqueles que você dá aos outros tampando o nariz).

Passo, finalmente, ao ponto que mais me incomoda e que me causa profunda irritação: a hipocrisia de muitos candidatos a Papai Noel. Já disse que acho bacana ver as campanhas de arrecadação de donativos destinados aos pobres no Natal, desde que partam de almas boas e autênticas.

Falo daqueles homens e mulheres incríveis identificados, genuinamente, com as pessoas que mais precisam. Inclui o sujeito que se veste de Papai Noel para entregar balas e alegria a crianças pobres, doentes e idosos esquecidos em hospitais e asilos. E as pessoas que se unem para recolher donativos a famílias pobres da periferia.

A estes seres humanos indispensáveis na sociedade fria que temos, meus parabéns. Vocês entenderam o verdadeiro significado do Natal – exercer a solidariedade verdadeira (de afeto, de abraços, mas também de bens materiais) entre os seres humanos de todas as cores, religiões, origens, credos, gêneros e opções sexuais, políticas e culturais. Feito Cristo, o aniversariante mais nobre e famosos de dezembro, que amava tudo e todos. E dava aos pobres pão, junto com palavras de amor.

Mas acho uma grande, gigantesca, canalhice e hipocrisia fazer isso quando se pertence à restrita casta dos privilegiados brancos e endinheirados que fazem campanhas de Natal direcionadas aos pobres somente para aparecer na foto. A mesma foto que, depois da doação, fazem questão de ostentar na sua timeline do Facebook ou no Instagram, como certificado de boa conduta conquistado junto a Deus. De preferência, a foto clássica da criança pobre no colo com brinquedo na mão e sorriso amarelo no rosto. Se for negra, melhor ainda. Quanto mais hipocrisia, enfim, melhor.

Gente que quer que as coisas mudem na Política e na Economia. Mas mudem pouco, para que o modelo predatório de Capitalismo que defendem perpetue as desigualdades sociais. Ou seja: completamente refratários à ideia de dividirem o muito que têm por meio de um sistema tributário justo (que imponha taxação pesada sobre os lucros e o capital) ou de mecanismos distributivos de renda para a inclusão social e a redução da pobreza custeados pelo seu dinheiro, esta gente sórdida quer que os pobres prossigam confinados aos seus guetos para que eles, os ricos, continuem usufruindo dos privilégios que sempre tiveram. E para que prossigam distribuindo esmolas aos favelados no Natal, a cada ano.

POR UM BRASIL COM MENOS CARIDADE – E MAIS JUSTIÇA SOCIALCriticar o falso humanismo destes crápulas e implicar com dezembro não é, portanto, só rabugice deste escriba. Nem coisa de militante comunista do PSTU que ainda vê na antiga Albânia um modelo de sociedade. É posicionamento de quem conhece nações ocidentais – focadas no Estado do bem-estar social – muitíssimo mais justas que a nossa, nas quais este roteiro turístico da falsa caridade não ocorre. E não ocorre simplesmente porque não é necessário. Do que a gente precisa mesmo, todos os dias (incluindo o de Natal) é de menos caridade e mais – muitíssimo mais – justiça social. O resto é conversa mole.  

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *