PELO DIÁLOGO ENTRE A POLÍTICA E O MUNDO DO FUTEBOL

PELO DIÁLOGO ENTRE A POLÍTICA E O MUNDO DO FUTEBOL

O acirramento das posições de extrema-direita do governo Jair Bolsonaro e de seus aliados reacendeu o pavio de um debate explosivo, mas absolutamente necessário, neste momento de grave crise institucional do País: a necessidade de haver uma aproximação cada vez maior entre a Política e o futebol brasileiro. 

Não que o tema seja novidade. Considerando-se apenas os últimos 50 anos, absolutamente todos os presidentes da República se apropriaram da enorme capilaridade do futebol para embalar sua popularidade.

Começando pelo general Emílio Garrastazu Médici (presidente do período mais duro da ditadura militar, de 1969 a 1974), que pegou carona no sucesso da vitoriosa seleção brasileira do Mundial do México de 1970 para imprimir ares popularescos ao profundo autoritarismo que adotou em sua gestão. Não sem reações duras dos adversários do governo, claro.

Não me refiro a Médici por acaso. É que, assim como há cinco décadas, o Brasil de Bolsonaro vive exatamente o mesmo confronto ideológico – ainda que com sinais trocados, nos dois casos que inspiram este texto.

O primeiro foi a declaração do ex-campeão do mundo e atual dirigente do São Paulo Raí, no dia 30 de abril, que defendeu a renúncia de Bolsonaro por força do festival de bizarrices cometidas pelo presidente.

Por seu posicionamento, o ex-craque do tricolor paulista foi atacado pelo comentarista e também ex-jogador do tricolor Caio Ribeiro, da Rede Globo, que considerou necessária isenção de dirigentes de clubes em relação à Política.

O segundo fato foi a decisão da diretoria da Gaviões da Fiel – a torcida organizada do Corinthians – de pedir a saída de todos os torcedores do clube alinhados com Bolsonaro. Mais: não contentes com isto, no último domingo, um grupo de 40 torcedores da Gaviões ocuparam as ruas de São Paulo para impedir a anunciada manifestação de bolsonaristas na Avenida Paulista.

Diferente do que pensa Caio Ribeiro, é fundamental trazer a discussão Política para o mundo do futebol não para partidarizar o esporte, mas para fomentar a democracia e gerar consciência de classe no gigantesco universo de torcedores de futebol.

Foi o que fez a Democracia Corinthiana, movimento criado nos anos 80 por craques como Sócrates, Casagrande e Wladimir que objetivava interferir diretamente nas decisões do clube – em benefício de jogadores e torcedores – e, ao mesmo tempo, fomentar um amplo debate sobre questões de âmbito político. Como se vê, o movimento prossegue e, por conta das declarações autoritárias de Bolsonaro e seus seguidores, ganhou força.

Neste cenário, não faz absolutamente nenhum sentido sustentar a máxima de que não se discute futebol, Política e religião. No cenário de alienação da maioria em que vivemos, debater estes temas não é apenas importante, mas fundamental. Se o modelo da Democracia Corinthiana tivesse sido implantado em outros clubes, o futebol brasileiro certamente seria outro. O País, possivelmente, também.

Foto: Rubens Chiri/saopaulofc.net

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *