O TRIUNFO DAS FAKE NEWS

O TRIUNFO DAS FAKE NEWS

Passou quase incólume, na grande mídia nacional, uma informação de enorme importância no debate sobre um dos temas da vez na agenda política nacional: as fake news. Trata-se da notícia, veiculada pela Agência Brasil, de que o WhatsApp é a principal fonte de informação de 79% dos brasileiros.

Resultado de pesquisa feita pela Câmara dos Deputados e pelo Senado, a matéria informa ainda que o WhatsApp – rede social que possui mais de 136 milhões de usuários no Brasil – fica à frente de todos os veículos tradicionais da grande mídia, como as rádios, jornais e até as TVs. Muito à frente, aliás. Depois do Whats, a TV é o principal veículo de informação (50%), seguida do Youtube (49%), do Facebook (44%), dos portais de notícias (38%), do Instagram (30%), das emissoras de rádio (22%), dos jornais impressos (8%) e do Twitter (7%).

Esta pesquisa se soma a uma outra sondagem sobre o WP, feita por pesquisadores da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), em maio. Segundo esta pesquisa, a Política é o tema da grande maioria das fake news veiculadas pelo Whats. A partir de uma base de 1,7 milhão de mensagens trocadas por 30,7 mil grupos de WhatsApp entre outubro de 2017 e novembro de 2018 (portanto, em pleno período pré-eleitoral e eleitoral), a Política dominou os debates.

Comparando as informações veiculadas nestes grupos com as notícias de seis portais de fast checking (cuja função é verificar a veracidade das informações veiculadas em portais de notícias e/ou nas redes sociais), os pesquisadores constataram a existência de 666 conteúdos comprovadamente falsos – 92% de teor político.

Ainda que as duas pesquisas não tenham valor científico e não traduzam a complexidade dos aspectos políticos, sociológicos, culturais e antropológicos relacionados às fake news no Brasil, oferecem pistas importantes para a compreensão deste fenômeno midiático contemporâneo.

Primeiro, explicitam o nível baixo de muitos conteúdos políticos presentes no WhatsApp, que – muitíssimas vezes – não têm nenhuma fundamentação científica e nem lastro em fatos. Por extensão, revelam a indigência política, moral e intelectual das pessoas que compartilham conteúdos falsos – e não raro criminosos – com a mesma displicência com que escovam os dentes, no domingo de manhã.

Finalmente, o que é mais grave, ajudam a explicar parte dos resultados das urnas nas eleições de 2018, sobretudo na disputa presidencial. Não custa lembrar que o presidente da República, Jair Bolsonaro, foi eleito sob a acusação de ter sido beneficiário de uma verdadeira fábrica de notícias falsas veiculadas contra seus adversários, na campanha eleitoral, patrocinada por empresas privadas sem escrúpulos – objeto da CPI Mista das Fake News, no Congresso Nacional.

Não por acaso, pesquisa realizada pelo Idea Big Data no início do ano passado, logo após a disputa presidencial, apontou que 98,21% dos eleitores de Bolsonaro foram expostos a fake news e incríveis 89,77% acreditaram nelas. Uma das mais absurdas (a versão de que o candidato do PT a presidente, o ex-prefeito de São Paulo Fernand Haddad, implantou o inexistente “kit gay” nas escolas) foi consumida por 85,2% dos eleitores de Bolsonaro e considerada verdade por 83,7% deles.

Esta profusão de dados não é prova inconteste de que Bolsonaro venceu a disputa porque a grande maioria dos seus eleitores acreditou em fake news, até porque as motivações que os levaram a trocar o professor pelo ex-capitão vão muito além da campanha eleitoral pela internet e estão intimamente ligadas à péssima imagem do PT no ambiente pré-eleitoral, agravada após o impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff.

Mas deixa claro, no mínimo, que grande parte do eleitorado que deu a vitória ao atual presidente da República divulga e acredita em fake news, sem absolutamente nenhuma problema de consciência. Ao fazê-lo, em 2018, esta multidão ajudou a definir o resultado das urnas. Não é um fato nada desprezível. Em última análise, estamos falando do grosso de um universo de 49 milhões de pessoas – o número de eleitores que votou no ex-capitão, no primeiro turno das eleições. Não foi diferente em relação a outros candidatos que fizeram largo uso de notícias falsas em suas redes sociais, na campanha eleitoral do ano passado.

A gravidade do tema exige estudos aprofundados, que já estão sendo feitos pelas universidades, mas também mudança de postura radical da Justiça Eleitoral e dos partidos. Isto porque as fake news deixaram de ser apenas uma brincadeira de péssimo gosto nas redes sociais para se tornar um poderoso instrumento de manipulação das massas no processo eleitoral.

Caso contrário, corremos o risco de uma repetição deste cenário de triunfo da mentira e da calúnia no ambiente político virtual, à revelia da lei e em prejuízo dos candidatos que farão Política com seriedade, nas eleições municipais de 2020. A tolerância da Justiça Eleitoral com os abusos das eleições de 2018 custou muito caro ao Brasil. Convém agirmos para evitar que o mesmo ocorra, daqui a um ano.

Foto: Roque de Sá / Agência Senado

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