O PAPEL DA OPOSIÇÃO, APÓS A COVID-19

O PAPEL DA OPOSIÇÃO, APÓS A COVID-19

A oposição ao governo de Jair Messias Bolsonaro tem uma dupla – e dificílima – tarefa a desempenhar, em meio à grave crise socioeconômica e sanitária provocada pela pandemia da Covid-19. Processo que, aliás, dificilmente vai se consolidar neste primeiro semestre do ano, já que a contaminação pelo coronavírus no Brasil domina a agenda midiática nacional e deverá se prolongar pelo menos até o final de junho – provável período de pico da doença.

O primeiro grande desafio é ampliar significativamente seus espaços na mídia. Em especial, nas redes sociais. Estes espaços estão quase totalmente tomados pelo presidente da República, pelas autoridades sanitárias (sobretudo, o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta) e pelos governadores dos principais Estados, especialmente João Dória (PSDB, de São Paulo) e Wilson Witzel (PSC, do Rio de Janeiro).

Esta missão se torna ainda mais difícil na medida em que importantes espaços para a propagação da sua narrativa – o Congresso Nacional e as Assembleias Legislativas – permanecem de portas fechadas durante a pandemia. Isto impede os detentores de mandato da oposição de discursarem – e repercutirem nas redes sociais – seus ataques ao Governo Federal nos principais palcos da política nacional. Ao mesmo tempo, limita sua ação a lives ou a postagens nas mídias sociais, que exigem, necessariamente, a formação uma grande rede de contatos para ter êxito e capilaridade.

O segundo desafio é sustentar e ampliar o movimento que surgiu, durante a pandemia, de impeachment do presidente Jair Bolsonaro. Aqui, de novo, o problema é duplo. Primeiro, o fato de que pesquisa feita na primeira semana de abril pelo Datafolha apontou que apenas 37% dos brasileiros querem a renúncia do presidente por causa da sua má atuação frente à pandemia do coronavírus.

Segundo, a enorme resistência que a proposta enfrenta tanto no Congresso Nacional (o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia-DEM, já afirmou que não vai acolher a sugestão) quanto em boa parte da oposição, incluindo segmentos expressivos do PT alinhados à sua liderança máxima, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A lógica dos petistas é cristalina: deixar Bolsonaro sangrar, na esperança de que isto tenha efeito pedagógico nas eleições de 2022. Acham, ainda, que o momento agora é de combater a Covid-19 – e não pensar em afastamento do presidente.

O problema da execução das duas propostas tem nome e endereço: Jair Bolsonaro. Do Palácio da Alvorada, nas ruas do Distrito Federal ou em lives toscasnas redes sociais, o presidente da República domina a narrativa e sufoca a oposição não apenas pelo cargo que ocupa, mas pela postura que adota.

Em campanha permanente rumo à 2022, Bolsonaro insiste na estratégia de fidelizar seu eleitorado por meio do reforço da posição de outsider da Política. Papel que executa brilhantemente com suas ações e postagens de enfrentamento do Congresso Nacional, da oposição, do STF (Supremo Tribunal Federal) e, agora, do movimento mundial que defende o isolamento como principal medida preventiva contra a explosão do contágio da Covid-19.

Isto exigirá esforço redobrado da oposição, que ainda se digladia em praça pública por força dos rancores acumulados durante o processo eleitoral de 2018, especialmente em função das rusgas trocadas entre as duas principais legendas da esquerda – o PT de Lula e o PDT do ex-presidenciável Ciro Gomes.

Não é um cenário de fácil superação. Encarar este desafio pode ser a diferença entre avançar no gosto popular e sonhar com uma vitória em 2022 ou aprofundar uma crise que pode provocar efeito contrário ao desejado: a reeleição de Bolsonaro ou a vitória de um candidato da centro-direita. Que o tempo indique o vencedor, no final do processo.

Foto: Ricardo Stuckert / Instituto Lula

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