O JEJUM DOS HIPÓCRITAS E A EXPLOSÃO DO CORONAVÍRUS

O JEJUM DOS HIPÓCRITAS E A EXPLOSÃO DO CORONAVÍRUS

A primeira semana de abril trouxe uma nova e definitiva prova de que o presidente da República não governa para o conjunto dos 210 milhões de brasileiros, mas sim para o atendimento das demandas do seu eleitorado. Sua lógica é cartesiana, ainda que velada: candidato full time, o presidente quer fidelizar seu ainda numeroso séquito para as eleições de 2022.

O que sustenta este argumento foi sua decisão de propor às lideranças das religiões evangélicas de extrema direita que o apoiam a realização de um jejum e de um dia de orações contra o Convid-19, no último domingo (dia 5). Diante do apelo do seu grande líder, milhares de pessoas não só fizeram o jejum como se deslocaram a locais públicos para orar pela contenção da doença e, claro, pelo sucesso do presidente.

Católico, mas casado com uma evangélica, Bolsonaro tem todo o direito de sugerir orações a um povo majoritariamente cristão como forma de reforçar a fé das pessoas na luta contra a maior pandemia deste século.

No contexto histórico e social em que foi proposto, porém, o jejum de Bolsonaro soa como uma afronta aos brasileiros – especialmente aos cerca de 14 milhões que se situam abaixo da linha da pobreza, segundo dados de 2018 do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Isto é especialmente grave quando se considera que o Estado é laico e que a grande maioria da população brasileira desaprova as ações do presidente em relação ao avanço do coronavírus, já que Bolsonaro é um crítico contumaz do isolamento recomendado pela OMS (Organização Mundial de Saúde) e por cientistas renomados de todo o planeta.

Falta ao presidente da República atenção aos números e ao gosto do brasileiro, inclusive ao dos seus eleitores. Tivesse ouvido a voz das ruas, saberia que, segundo o Datafolha, 15% dos seus eleitores disseram ter se arrependido de ter votado nele em 2018. E 49% entre os que votaram em Bolsonaro reprovam sua atuação na crise.

Isto não é tudo. Dados do próprio Ministério da Saúde, revelados no domingo, apontavam que havia subido para 486 o número de mortes pelo coronavírus no Brasil, com 10.278 casos confirmados – 852 apenas entre os dias 4 e 5 de abril. O detalhe mais grave, porém, é que a letalidade da doença avança a passos largos por aqui. Enquanto a mortalidade pela Covid-19 no País foi de 4,4% no final de semana, a taxa de mortalidade média no mundo foi de 3,74%.

Na análise da evolução dos números, o cenário se agrava ainda mais. No último dia 28 de março, havia 114 mortes pela Covid-19 no Brasil. Oito dias depois, já havia 486 casos, o que indica que o número de mortes está mais que triplicando a cada semana. E que o quadro vai se agravar enormemente, caso não sejam tomadas medidas ainda mais rigorosas de isolamento do público.


Dados como este seriam suficientes para um presidente da República sério e racional desistir de qualquer proposta de cunho eleitoreiro, como a deste domingo. Não é o caso de Bolsonaro. Cada vez mais isolado na sua estupidez, o chefe da Nação não percebe que seu papel, em um momento gravíssimo como este, não é o de convidar a população para fazer jejum, mas sim o de liberar recursos imediatos para combater a Covid-19 – o que ele demorou a fazer, já que o Senado aprovou a ajuda emergencial à população já no dia 30 de março e os recursos ainda não saíram.

Tamanha insensatez não encontra eco nem entre os evangélicos conscientes, como o missionário e teólogo Caio Marçal, coordenador da Rede Fale. Ele criticou Bolsonaro e seus colegas religiosos citando o texto bíblico de Isaías 58:7: “O jejum que me agrada é que vocês repartam a sua comida com os famintos, recebam em casa os pobres que estão desabrigados, que deem roupas aos que não tem e nunca deixem de socorrer os seus parentes”.

Tamanha lição passa ao largo do presidente da República e do seu séquito de pastores, imersos que estão na apropriação hipócrita da religião como ferramenta de marketing político e na sua absoluta ausência de compromisso com os mais pobres, uma vez que estas igrejas nada fazem para combater o avanço da Covid-19 e prestar assistência às pessoas que estão passando necessidade, neste momento. Que eles sejam convencidos de que estão errados por sua própria consciência, não pelos caixões empilhados das vítimas da Covid-19 que, infelizmente, devem começar a ocupar o noticiário a partir das próximas semanas.

Foto: Dida Sampaio / Estadão

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