O FUTEBOL BRASILEIRO PRECISA SER PASSADO A LIMPO

O FUTEBOL BRASILEIRO PRECISA SER PASSADO A LIMPO

Não se falou em outra coisa no mundo do futebol, ao longo da semana: as revelações dos detalhes sórdidos envolvendo o estupro de uma jovem albanesa na boate Sio Café, em Milão, pelo jogador Robinho e um grupo de amigos. Ocorrido em 22 de janeiro de 2013, o crime custou ao jogador uma condenação a 9 anos de prisão, em 2017, em decisão de primeira instância da Justiça italiana.

O que chocou no caso foram duas aberrações. Primeiro, obviamente, o absoluto grau de violência e desrespeito do grupo em relação à jovem. As frases ditas por Robinho, reveladas pelo site Globoesporte.com, sintetizam a brutalidade do crime: “Estou rindo porque não estou nem aí. A mulher estava completamente bêbada. Não sabe nem o que aconteceu. Ainda bem que existe Deus, porque eu nem toquei aquela garota. Vi (NOME DE AMIGO 2), e os outros f…. ela. (…) Lembro que os caras que pegaram ela foram (NOME DE AMIGO 1) e (NOME DE AMIGO 2)….Eram cinco em cima dela”.

Mas chocam também as reações de muitos dirigentes, torcedores e até da imprensa esportiva diante do caso. O Santos Futebol Clube, por exemplo, que cancelou a contratação de Robinho. O clube só fez isso, porém, porque concluiu que teria prejuízo de cerca de R$ 20 milhões com a vinda do jogador, diante da forte reação negativa de patrocinadores diante do caso.

“Pelas informações que tenho, não existe uma decisão definitiva da Justiça Italiana, o processo ainda está em curso, e será apreciado em outras instâncias”, disse o presidente do Santos, Orlando Rollo, quatro dias antes das revelações do Globoesporte.com. O dirigente esqueceu-se, porém, que a decisão da Justiça italiana foi pela condenação do jogador.

Não foi diferente a reação de muitos torcedores. “A hipocrisia domina o País. 9 entre 10 homens já entrou numa boate e participou destas ´festinhas´. Nem por isto são marginais”, escreveu um leitor do portal UOL que usou o apelido “Brasil Evoluído”.  Outro, denominado “Visitante”, comentou: “Mais um perseguido pela Globo”. E um terceiro, chamado “Pedro”, escreveu, no mesmo espaço: “Coitado”.

Setores da imprensa esportiva adotaram o mesmo tom, a exemplo de Caio Ribeiro, comentarista da TV Globo, que disse, em seu programa na emissora: “A gente não tem todas as informações. Então, vamos esperar. Quem tem que julgar é a Justiça para decretar se ele é inocente ou culpado”. Caio foi o mesmo comentarista que condenou o ex-diretor-executivo de Futebol do São Paulo, o ex-jogador Raí, por suas duras críticas ao governo excludente do presidente Jair Bolsonaro.

Todas estas declarações são gravíssimas porque, embora não sejam representativas de todos os dirigentes, torcedores e jornalistas esportivos, mostram o tamanho do desprezo e do machismo de muitos brasileiros. A misoginia, decididamente, está incrustrada na cultura do brasileiro. E, por isso, invade também o mundo do futebol, que prossegue sendo a grande paixão nacional.

Vamos aos números: de acordo com o 13ª Anuário Brasileiro de Segurança Pública,  66 mil mulheres foram vítimas de estupro no Brasil apenas em 2018 – maior número desde que o estudo começou a ser feito, em 2007. Detalhe: 53,8% foram meninas de até 13 anos. Em um País com este histórico contra as mulheres, declarações como as citadas acima escandalizariam a sociedade. No Brasil, são elogiadas por muitos. 

É inaceitável que dirigentes, atletas, torcedores, jornalistas ligados ao mundo do futebol não percebam a gravidade do problema e não entendam o quanto suas posições podem ser altamente prejudiciais. Isso porque banalizam um ato de extrema violência e influenciam os mais jovens ou descerebrados/degenerados de toda natureza a cometerem o mesmo crime, na perspectiva de não serem punidos e, o que é pior, protegidos na eventualidade de cometerem um crime como esse.

Posições como as citadas acima estão longe, muito longe, de serem fruto da liberdade de expressão. São chancelas de crimes inomináveis, com repercussões e implicações gravíssimas na sociedade, provando que o futebol brasileiro reflete a mentalidade primitiva que predomina no Brasil em relação aos direitos humanos. Este primitivismo humanitário precisa acabar. O futebol brasileiro precisa ser passado a limpo, neste e em outros aspectos – e logo.  

Foto: Ivan Storti /Santos FC / Fotospublicas.com

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *