O FIM DO “MITO” E O FUTURO DE MORO

O FIM DO “MITO” E O FUTURO DE MORO

O terremoto político provocado pela saída conturbada de Sérgio Moro do Ministério da Justiça do governo Jair Bolsonaro gerou especulações precipitadas sobre o futuro de ambos e o cenário eleitoral de 2022. A verdade é que, em um país imprevisível e com instituições tão frágeis como o Brasil, muitas vezes é difícil analisar as perspectivas do cenário político com grande margem de acerto.

Das obviedades resultantes da saída de Moro, que entre outras coisas fez a gravíssima acusação de que o presidente da República tentou interferir em investigações da Polícia Federal com interesses pessoais, resta claro que Bolsonaro perdeu parte significativa da sua base de apoio tanto junto ao eleitorado quanto ao empresariado e à classe política. Sérgio Moro era o fiador da suposta moralidade pública do presidente.

Com sua saída, nas circunstâncias em que isto ocorreu, o ex-ministro da Justiça e ex-comandante da Lava Jato simplesmente implode o conceito de “mito” íntegro que Bolsonaro construiu junto ao eleitorado de extrema direita, o que lhe permitiu a vitória nas eleições de 2018. Conceito que começou a se desintegrar desde que surgiram as primeiras denúncias de “rachadinhas” envolvendo seu filho e senador Flávio Bolsonaro e, mais recentemente, sua decisão de se aliar ao chamado “Centrão” para fortalecer sua base de apoio no Congresso – grupo de deputados com orientação claramente fisiológica.

Na prática, na melhor das hipóteses, esta mudança de cenário deverá dificultar muito a reeleição do presidente da República. Na pior, vai resultar na cassação do seu mandato. Os números comprovam o desgaste do presidente. A empresa AP Exata, especializada na discussão política nas redes sociais, pesquisou 412 mil postagens no Twitter, em 145 cidades, depois do pronunciamento de despedida de Moro do cargo. Apontou que as referências ao impeachment de Bolsonaro cresceram 140% na sexta-feira (24/04), em comparação com quinta.

Além disso, o jornalista Rodrigo Ratier – que faz monitoramento diário de 29 grupos de WhatsApp bolsonaristas – apontou que a base de apoio do presidente começa a derreter mesmo entre seus eleitores mais radicais. Segundo Ratier, a queda de Moro e a aliança do presidente com o “Centrão” levaram um número significativo de bolsonaristas a criticá-lo. Fato confirmado pela decisão de muitos de inclusive deixar os grupos, indicando seu rompimento com Bolsonaro. Tudo isso torna o futuro do presidente da República incerto, mas pouco promissor para alguém que planejava se reeleger para o posto, em 2022.

Já em relação a Sérgio Moro, a incógnita é ainda maior. Ainda que tenha sido o mais popular e respeitado ministro do governo (com mais de 53% de aprovação) por causa da fama de íntegro que construiu na Lava Jato, o ex-juiz fez um discurso de despedida claramente eleitoral, na medida em que deixou seu futuro em aberto.

Advogado de formação, poderia ter dito que pretende se dedicar à carreira. Ex-professor da UFPR com doutorado na área, também poderia ter informado que pretende voltar à cátedra. Mas não. Ao lançar cortina de fumaça sobre seu futuro, Moro deixa aberta a possibilidade de se filiar a um partido político (de olho na sucessão presidencial de 2022) e/ou de aceitar um convite para ocupar uma secretaria de peso em um governo estadual que lhe garanta grande visibilidade – como São Paulo ou o Rio de Janeiro.

O caminho de Moro até o Palácio do Planalto, porém, não será nada fácil. Embora esperto e arrivista, o ex-ministro da Justiça é novato no altamente complexo xadrez político brasileiro. Mesmo com sua enorme popularidade, precisará de grande habilidade política para superar seu principal adversário no campo da centro-direita – o governador de São Paulo, João Dória, que governa o mais rico e populoso Estado brasileiro e nada de braçada em termos de popularidade, em meio à pandemia da Covid-19. O mesmo vale para outro adversário de peso, igualmente popular e com grande aceitação tanto no meio empresarial quanto no político – o apresentador Luciano Huck, da Rede Globo de TV.

Fora isso, a metralhadora giratória que acionou na sua despedida do Ministério da Justiça também pode atingi-lo. Além de ter que enfrentar a aguerrida milícia virtual bolsonarista, Moro terá que provar que as acusações que fez contra o presidente – que Bolsonaro refutou, acusando-o de ter colocado sua indicação para o STF como condição fundamental para aceitar o convite para ser ministro – são reais, sob pena de ser acusado de injúria contra o chefe da Nação.

E terá que fazer isso em uma possível CPI que será aberta no Congresso Nacional (na qual pode enfrentar armadilhas dos deputados da oposição) ou no curso do processo de abertura de investigações já enviado pela Procuradoria Geral da República ao STF (Supremo Tribunal Federal). O cenário, enfim, está aberto. O tempo dirá se Moro, Bolsonaro ou ambos serão consagrados – ou dizimados pela História.

Foto: Lula Marques

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