O FEMINICÍDIO, A EXTREMA DIREITA E A FALÊNCIA CULTURAL DO BRASIL

O FEMINICÍDIO, A EXTREMA DIREITA E A FALÊNCIA CULTURAL DO BRASIL

A última semana do ano começou com uma tragédia que sensibilizou o Brasil: o assassinato da juíza carioca Viviane Vieira do Amaral Arronenzi pelo seu marido, o engenheiro Paulo José Arronenzi. O crime chocou não só por força da brutalidade e da estupidez do assassinato, mas porque foi cometido na frente das três filhas do casal, todas menores de idade.

Apesar da gravidade deste crime e do aumento do feminicídio em todos os Estados brasileiros, a sucessão de assassinatos de mulheres permanece desprezada por boa parte da sociedade brasileira, como se fosse um mal menor no contexto das nossas tragédias sociais. Não deveria. Os números falam por si mesmos. De acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, apenas em 2019, houve 1.326 feminicídios no País. Trata-se de um número 7,6% maior que o registrado em 2018. O detalhe macabro dos dados é que 89,9% dos crimes foram cometidos por companheiros ou ex-companheiros das vítimas.

Os números parecem pequenos, se considerados isoladamente. Não são. Para compreender a sua gravidade, é preciso situá-los em um contexto internacional. Segundo a organização internacional Human Rights Watch, o Brasil é o País com maior número de mortes de mulheres entre as 36 nações que integram a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico).

Não é mera casualidade. O Brasil é, desde sempre, um país profundamente machista e violento. Já era séculos antes da promulgação da Constituição Federal de 1998, que tentou impor uma agenda social efetiva e equânime no País. Mas se agravou nos últimos anos, por força do crescimento da onda extrema direita que infestou a política e ainda da expansão das igrejas ultraconservadoras tradicionais, que sustentam sua base de fiéis com uma agenda machista e patriarcal.

A relação entre os dois fatos é óbvia. O chamado machismo estrutural já está instituído na sociedade brasileira e responde pela explosão de casos de mortes violentas de mulheres no Brasil. Os números confirmam isso. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em 2018, mais de 500 mulheres foram vítimas de violência doméstica, na grande maioria dos casos cometida por seus companheiros, ex-companheiros e até vizinhos.

Para combatê-lo, seria necessário que o Estado adotasse um processo amplo de educação e de respeito às mulheres, de dura repressão legal/policial e do compromisso efetivo dos governantes de enfrentá-lo por meio de políticas públicas de longo prazo. Não foi o que aconteceu.

Aliado das forças conservadoras e tradicionais do segmento evangélico mais reacionário existente, governantes e legisladores perderam a chance de atenuar os efeitos do problema e de ampliar as conquistas obtidas no campo da equidade social, lançando a nação em uma sucessão de retrocessos nunca vista na História recente do Brasil.

O preço deste atraso é alto e está sendo pago pelos de sempre: os alvos preferenciais da covardia, da violência, do preconceito e da ignorância, como as mulheres. É só o começo. A julgar pelos números, o servilismo dos poderosos ao atraso vai se prolongar por alguns anos, pelo menos, comprovando a falência cultural da Nação no campo dos direitos humanos e da cidadania. Triste o País que temos.

Foto: Arquivo pessoal dos familiares da juíza

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