O ESQUELETO DO IMPEACHMENT COMEÇA A SAIR DO ARMÁRIO

O ESQUELETO DO IMPEACHMENT COMEÇA A SAIR DO ARMÁRIO

A sucessão de eventos que pode levar ao impeachment do presidente da República tem similaridade com o teatro grego praticado quinhentos anos antes de Cristo, em pelo menos duas características: o número de atos e a identidade de gênero dos seus personagens. Eram cinco atos. E todas as peças eram executadas somente por atores homens, mesmo que houvesse papéis femininos.

Bolsonaro conseguiu a proeza de, em menos de 1,5 ano, executar pelo menos quatro atos que podem pavimentar seu afastamento definitivo do cargo. O primeiro ato ocorreu em 24 de abril, com o pedido de demissão do ex-ministro da Justiça, Sérgio Moro. Blindagem moral e ministro mais popular do governo, Moro saiu atirando contra o presidente, que nunca o prestigiou de verdade: acusou-o de interferir nas investigações da Polícia Federal para proteger um dos seus filhos, o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos/RJ). De quebra, levou consigo a legião de apoiadores da Lava Jato que embarcaram na onda Bolsonaro iludidos pela suposta idoneidade do presidente.

O segundo ato ocorreu no último dia 18, com a prisão de Fabrício Queiroz, caixa-preta da família Bolsonaro há cerca de 30 anos. Embora seja fiel escudeiro da família, o que indica que não deverá revelar segredos comprometedores de Bolsonaro e seus filhos, o simples fato de ter sido detido na casa de Frederick Wassef (advogado do presidente e de Flávio) e de ter sofrido apreensão de seus celulares pode acender a pólvora da destruição do império político construído por Bolsonaro.

O terceiro ato foi a sucessão de derrotas na Justiça, que chegou ao seu ápice na semana passada com a decisão do STF (Supremo Tribunal Federal) de manter o ex-ministro da Educação, Abraham Weintraub (demitido no mesmo dia em que Queiroz foi preso), no inquérito das fake news. Pode ser o estopim jurídico para a deflagração do impeachment, com seus respectivos desdobramentos no Congresso Nacional e no TSE (Tribunal Superior Eleitoral).

O quarto ato é trágico: a explosão de mortos pela Covid-19, que já coloca o Brasil como pária internacional por culpa exclusiva de Jair Messias Bolsonaro, responsável pelas piores soluções no enfrentamento da doença. Não por acaso. O país deve fechar junho com mais de um milhão de contaminados e cerca de 60 mil mortos pela doença. Como o Brasil ainda não atingiu o pico da Covid-19, o que só deve acontecer em agosto, estima-se que o aumento do número de mortos deva esmigalhar a popularidade do presidente.

Há ainda mais um ato, em franco processo de gestação: a depauperação cada vez maior da economia brasileira, com a possível saída do ministro Paulo Guedes, que exerce uma gestão desastrosa da área. Embora o avanço do dólar e do aumento dos combustíveis tenha sido contido, o desemprego – área extremamente sensível – aumenta, a passos largos. A taxa de desemprego subiu para 12,6% no primeiro trimestre e já atinge 12,8 milhões de pessoas, o que indica aumento da pobreza, redução do consumo e, como resultado, fechamento de mais postos de trabalho em todas as áreas. 

Fora isso, em abril, o Índice de Atividade Econômica despencou para o recorde histórico de 9,7%. Dado extremamente preocupante para Bolsonaro porque atinge diretamente o fluxo de caixa dos empresários dos segmentos do comércio, da indústria e dos serviços, que em boa parte apoiaram o presidente na sua campanha, em 2018. Como não há nada pior para um governo que a crise econômica, isso significa que recairá sobre o colo de Bolsonaro a culpa pela miséria do setor, cada vez mais crescente do Brasil.

No teatro do qual Bolsonaro é o principal ator, faltam poucos elementos para a encenação final, que pode ser seu afastamento do cargo. Por exemplo, a disposição do presidente da Câmara Federal, Rodrigo Maia, de aceitar pelo menos um dos quase 30 pedidos de impeachment do presidente da República. O deputado, por enquanto, mantém a disposição de não fazer isso. Mas é um político sensível aos humores da população e do mercado. Se perceber que terá mais prejuízos rejeitando que aceitando os pedidos de impeachment, vai ceder. Se isso acontecer, que o capitão se prepare. O desfecho deste teatro trágico criado por Bolsonaro poderá ser sua retirada de cena, antes do fechamento das cortinas do palco da Presidência da República.

Foto: Adriano Machado / Reuters

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