O CORONAVÍRUS REVELOU A FACETA POPULISTA-ELEITOREIRA DE BOLSONARO

O CORONAVÍRUS REVELOU A FACETA POPULISTA-ELEITOREIRA DE BOLSONARO

Embora seja um desastre socioeconômico e sanitário para o País de proporções inimagináveis, a chegada do Covid-19 ao território nacional teve ao menos uma utilidade para os observadores da cena política brasileira: revelar, com absoluta clareza, a faceta populista e eleitoreira do presidente da República.

A verdade é que, mesmo após receber 57 milhões de votos no segundo turno das eleições presidenciais de 2018 e depois de impor uma derrota grandiosa à oposição, Jair Bolsonaro nunca desceu do palanque. Desde que assumiu o mandato, há 15 meses, o presidente da República tem dedicado boa parte do seu tempo muito mais a fidelizar seu eleitorado que a apresentar projetos viáveis e a executar ações concretas para tirar o Brasil de uma das maiores crises da sua História.

Para tanto, Bolsonaro utiliza uma narrativa tosca e cheia de inverdades, temperada com gestos teatrais mais adequados a um candidato que a um presidente da República. Tudo na sua ânsia desatinada de atacar os adversários de sempre (como o PT e os partidos de oposição) e de agora (como os governadores de São Paulo, João Dória, e do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, ambos potenciais adversários do presidente, em 2022) para faturar politicamente com isto. Este posicionamento se tornou evidente em pelo menos dois momentos, na semana que passou, em plena crise do coronavírus.

O primeiro deles foi o seu pronunciamento em cadeia nacional de rádio e TV, na terça-feira (dia 24). Nele, o presidente da República – contrariando diretrizes do próprio Ministério da Saúde, da OMS (Organização Mundial de Saúde) e dos maiores infectologistas do planeta – desfilou sandices à sua patuleia. Entre elas, o fim da quarentena (medida adotada por chefes de Estado de 157 países) e a adoção da hidroxicloroquina como remédio contra o coronavírus (a droga ainda está em fase de testes, com resultados pouco conclusivos).

Na justificativa do seu gesto, que merecia colocar o presidente da República Federativa do Brasil no banco dos réus por crime de responsabilidade contra a Nação e passou à História como uma das declarações públicas mais desrespeitosas e absurdas de um chefe de Estado brasileiro, Bolsonaro disse que preparou sozinho o pronunciamento, sem a ingerência de ninguém.

Mentiu novamente, como de praxe. Como revelado pela imprensa no dia seguinte à transmissão, o presidente da República decidiu fazer o pronunciamento atendendo a pressões dos muitos empresários que o apóiam – entre eles, Luciano Hang (Havan) e Júnior Durski (Madero) – e dos seus eleitores mais ferrenhos.

Tratou-se, portanto, de um gesto eleitoral e não de um estadista preocupado em informar à população sobre as ações que está adotando no combate à doença. Postura exatamente oposta à adotada por verdadeiros estadistas, como a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, que é exemplo mundial na contenção do Covid-19.

O segundo gesto eleitoreiro do presidente, mais ostensivo, foi adotado no domingo passado (dia 29). Em mais uma prova de desprezo pelas orientações médicas e científicas, Bolsonaro rompeu o isolamento ao qual estava confinado – pelo fato de pertencer ao grupo das pessoas mais vulneráveis ao Covid-19 – para cumprimentar apoiadores e conversar com comerciantes/ambulantes em Ceilândia, cidade do Distrito Federal localizada a 25 km de Brasília.

Ou seja: tratou-se de mais um gesto eleitoreiro do presidente da República que, em vez de ficar isolado em seu espaço no Palácio da Alvorada e liderar o processo de combate ao avanço do coronavírus no comitê de crise criado para debater o problema, preocupa-se em fazer selfies com seus eleitores para manter a chama acessa da sucessão presidencial, até 2022.

Não por acaso, no mesmo dia em que fez seu pronunciamento, o presidente foi informado – por meio de pesquisa divulgada pelo Datafolha – que nada menos que 51% dos entrevistados com faixa de renda acima de dez salários mínimos (os mesmos que aprovaram sua candidatura, em 2018) reprovam suas medidas para combater o avanço da doença. Ainda de acordo com a pesquisa, entre os eleitores com formação universitária, 46% consideram o trabalho feito por Bolsonaro para enfrentar a pandemia ruim ou péssimo.

Os números falam por si mesmos. Seja como gestor público ou estadista, Bolsonaro é uma tragédia política. Por isso, perde apoios a cada dia. E continuará perdendo, na media em que insistir em transformar o Palácio da Alvorada em palanque de campanha e palco para teatralidades eleitorais. Bolsonaro, definitivamente, é indigno do posto que ocupa. Para sua infelicidade, cada vez mais brasileiros percebem isso.

Foto: Folhapress

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