O CALVÁRIO DE BOLSONARO COMEÇA AGORA

O CALVÁRIO DE BOLSONARO COMEÇA AGORA

O destino está a um passo de pregar uma duríssima peça de ironia no presidente da República, Jair Messias Bolsonaro.

Em maio de 2016, o Senado aprovou a abertura do processo de impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff. Logo após a sessão da Casa, a ex-presidenta recebeu a intimação com a decisão, foi afastada do cargo – e nunca mais voltou ao Palácio do Planalto, a não ser para limpar suas gavetas. Dilma foi afastada oficialmente do posto de presidente da República em 31 de agosto deste ano.

Pois bem. Exatamente quatro anos depois, o principal algoz do PT nas eleições de 2018 – o presidente Bolsonaro – poderá sofrer o mais duro golpe desde que assumiu o posto, há 16 meses. Um golpe tão duro que – assim como Dilma Rousseff – poderá custar o seu mandato, caso o previsível aconteça.

Trata-se do depoimento do ex-juiz e ex-ministro Sérgio Moro à Polícia Federal, autorizado pelo STF (Supremo Tribunal Federal), para explicar sua gravíssima acusação de que o presidente da República tentou interferir nas indicações da PF por interesses pessoais.

No caso, para evitar o avanço das investigações contra seus filhos, especialmente o senador Flávio Bolsonaro, que está sendo acusado de envolvimento com milícias e “rachadinhas” de salários de colaboradores em seu gabinete, quando deputado estadual do Rio de Janeiro.  

Ainda neste mês, também há a possibilidade de que a Câmara Federal aprove a criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito para apurar as denúncias feitas por Moro, mesmo com o distanciamento social. Há forte pressão de parlamentares – à direita e à esquerda – para que isto aconteça. O primeiro grupo porque, em grande parte, é alinhado a Moro; o segundo, porque quer criar base jurídica para um possível impeachment do presidente da República.

Moro já apresentou uma pequena amostra das provas que tem em mãos logo após pedir demissão do cargo, no dia 24 de abril, exibidas em reportagem do Jornal Nacional, da Rede Globo. Mas seu histórico de ex-juiz e ex-comandante da Lava Jato indicam que o ex-ministro tem muito mais material na cartola. E material pesado.

O ex-juiz tem razões fortíssimas para exibir todo seu arsenal. Se for candidato a presidente da República, como deseja (apesar da sua negativa), seu depoimento poderá gerar farto e incontestável material para justificar a saída do presidente e elevar Moro à condição natural de pré-candidato à sucessão de Bolsonaro.

Se não for, porém, Moro tem o desafio de não manchar sua biografia, já que foi desafiado pelo próprio presidente a apresentar provas das acusações. E ele terá que fazer isso mesmo que as provas também acabem enquadrando-o no crime de prevaricação, uma vez que Moro sabia dos crimes atribuídos pelo presidente há mais de um ano e não fez nada para combatê-los.

O previsível agravamento do número de casos da Covid-19, que deve atingir seu pico no final do mês e levar o Brasil à trágica posição de um dos países do mundo com mais casos da doença, tende a piorar o cenário político para os governistas e apimentar o movimento dos que desejam o presidente da República fora do cargo. Se a História se repete primeiro como tragédia e depois como farsa, como disse o pensador Karl Marx, repete-se também como ironia, no caso do Brasil. 

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