O BRASIL, NA ERA PÓS TRUMP

O BRASIL, NA ERA PÓS TRUMP

A eleição do último dia 4 nos Estados Unidos tem incrível efeito pedagógico para o Brasil, vitimado pelo recrudescimento da extrema-direita e pela vitória de políticos populistas profundamente conservadores.

Não que o presidente eleito dos EUA, Joe Biden (ex-vice-presidente na gestão de Barack Obama – 2009-2017), seja um exemplo de democrata e de gestor público. Longe disso. Quem brilhou na gestão de Barack Obama foi mesmo o próprio, sem que seu vice tenha ofuscado sua luz. Aliás, Biden foi alvo de um escândalo internacional envolvendo seu filho, Hunter, acusado de tráfico de influências pelo fato de ter conversado por e-mail com Vadym Pozharskyi, funcionário da Burisma (uma das maiores companhias de gás natural da Ucrânia), quando seu pai ainda ocupava o segundo cargo mais importante da Nação.

A verdade é que o presidente eleito dos EUA só foi indicado candidato pelo Partido Democrata porque era, dentre as opções disponíveis, a mais palatável em um País dominado pela extrema direita, liderada pelo tosco, endinheirado, ignorante e autoritário Donald Trump.

Em um cenário como este, seria suicídio político indicar Hillary Clinton (até porque ela foi derrotada pelo presidente Trump, em 2018), Bernie Sanders  (considerado progressista demais para o “novo normal” da política norte-americana) ou até Al Gore (vice-presidente de Bill Clinton entre 1993e 2001, mas desaparecido do noticiário político, nos últimos anos).

A estratégia revelou-se acertada, ainda que arriscada, o que ficou claro pelo fato de a vitória de Biden sobre Trump ter sido menos folgada que os números apontados pelos institutos de pesquisa.

Porém, é exatamente neste ponto que a vitória do candidato democrata à Presidência dos EUA encontra similaridade com o Brasil e deveria servir de inspiração para a esquerda brasileira. Embora haja óbvias e gritantes diferenças sociais e econômicas entre Brasil e EUA, a extraordinária relevância econômica e geopolítica dos norte-americanos pode gerar, por efeito-cascata, mudanças também no cenário eleitoral mundial.

Sim, falamos de Jair Messias Bolsonaro. É óbvio que – preocupado em recuperar a economia dos EUA depois da devastação causada pela pandemia da Covid-19, o presidente eleito vai focar ações na geração de empregos e na recomposição do poder de compra dos norte-americanos de mais baixa renda – os mais afetados pela pandemia e pela política excludente adotada por Trump.

Porém, sabendo que sua idade avançada (82 anos, quando terminar o mandato) talvez não lhe dê chances de uma nova candidatura, Biden vai tentar reposicionar os EUA como protagonista da agenda desenvolvimentista mundial, no momento em que a China ganha cada vez mais espaço nesta área. Isso inclui não só uma ação mais contundente em defesa de uma solução rápida mundial para o problema da Covid, mas a construção de uma agenda social e ambiental (sobretudo após a destruição das florestas em nações como o Brasil) mais contundente.

Ao agir assim, Biden deverá pressionar fortemente Bolsonaro em duas áreas muito sensíveis, que – por força do primarismo do presidente brasileiro – fragilizaram o País nos dois últimos anos. Assim, mesmo que não seja boicotado pelos EUA na compra de produtos que totalizaram US$ 10 bilhões apenas em 2019, o governo brasileiro certamente sofrerá com fortes pressões para se ajustar à nova ordem que o presidente democrata vai querer adotar para um mandato impactante – e fazer história.

Em última instância, isso pode agravar a crise econômica do Brasil, aumentar a pressão do empresariado brasileiro e estrangeiro contra Bolsonaro e dificultar a reeleição do presidente. Bolsonaro, enfim, que se cuide. A vitória de Biden não representará uma mudança radical na cena política mundial, mas certamente vai causar danos aos presidentes alinhados com o boquirroto e agora derrotado Donald Trump.

A derrota de Trump aliviou o amargor da derrota das lideranças políticas do campo democrático, em todo o mundo, ocorrida nos últimos anos. Pelo andar da carroça, Bolsonaro terá que trabalhar bastante para evitar que o mesmo aconteça no Brasil.

Foto: Twitter Biden

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