O BOLSONARISMO NATURALIZOU A MORTE

O BOLSONARISMO NATURALIZOU A MORTE

Os sucessivos ataques à democracia e a apologia da violência estão longe de ser os únicos retrocessos promovidos pelo Bolsonarismo desde que o atual ocupante do Palácio do Planalto assumiu as rédeas da Nação, em janeiro de 2019. Outra prática execrável tem sido praticada e incentivada, sistematicamente, por este governo: a naturalização das mortes provocadas pela pandemia de Covid-19.

Este fato torna-se cristalino no discurso do Bolsonaro. Primeiro, quando o presidente cunha desastrosas frases jocosas e desrespeitosas (“e daí?”, por exemplo) banalizando a explosão de vítimas do coronavírus. Depois, quando nega – o tempo todo – a veracidade dos estudos científicos que desaprovam o uso de medicamentos como a cloroquina no combate à doença.

Mas isto também ocorre quando o chefe da Nação sustenta que não há como evitar as mortes por não reconhecer sua responsabilidade na solução do problema. Ou seja: para Bolsonaro, as vítimas da Covid-19 são quase como que resultado de um inevitável fenômeno da natureza – e não fruto da ausência de um eficiente plano nacional de combate à doença articulado em parceria com prefeitos e governadores.

Esta postura é gravíssima porque tem efeito pedagógico. Cai como água no deserto sobre as mentes e corações da legião de analfabetos políticos, de radicais de extrema direita (de todas as classes sociais) e ainda de herdeiros da Casa Grande que insistem em se colocar um degrau acima dos mortais. Vide o desembargador paulista Eduardo Siqueira, que aplicou carteiraço no guarda municipal Cícero Hilário Neto porque não queria colocar sua máscara durante caminhada pela orla de Santos.

O troglodita de toga se deu mal. Terá de prestar contas ao Conselho Nacional de Justiça e teve sua ignorância cavalar exposta no Brasil todo. O problema é que o desembargador não está sozinho. Existem milhões de Siqueiras espalhados pelo Brasil. São eles os abnegados que garantem os votos de Bolsonaro e os ainda consistentes 30% de aprovação que o presidente da República ostenta.

A esta gente insensível, estúpida, arrogante e insensata, não adianta desfilar argumentos científicos e nem números, mesmo que chocantes. E eles o são. A bomba atômica (Little Boy) que o governo de Harry Truman lançou sobre Hiroshima matou cerca de 130 mil pessoas apenas nos dois primeiros meses após seu lançamento. Em Nagasaki, três dias depois, foram cerca de 70 mil.

Cito este horroroso episódio da História porque o lançamento das bombas completará 75 anos na primeira semana de agosto, mesmo mês em que o Brasil deverá atingir um número de vítimas da Covid-19 próximo ao número de mortos em Hiroshima. No final de junho, o portal UOL informou que a Opas (Organização Pan-Americana de Saúde), tentáculo da OMS (Organização Mundial da Saúde) na América, previu que o Brasil teria 80 mil mortes pela doença no início de agosto. O número foi atingido duas semanas antes. E vem crescendo porque o pico da Covid-19 ainda não chegou.

Se a média de mortos se mantiver na faixa de pelo menos 673/dia, número equivalente a apenas 50% das 1346 vítimas registras no dia 21 de julho, teremos 110 mil mortos até o final de agosto. Considerando-se que as subnotificações sejam de apenas 30%, um número tímido dada a precariedade dos testes feitos para o diagnóstico da doença no Brasil, atingiremos pelo menos 130 mil mortos – mesmo número de mortos em Hiroshima.   

Para a grande maioria dos bolsonaristas radicais, porém, números bizarros como estes não importam. Sua insensibilidade e ignorância os impede de perceber a gravidade da situação sanitária que vivemos – culpa, em grande parte, do governo que defendem. Mais que um negacionista, Bolsonaro é cúmplice da morte e sério candidato a figurar no banco dos réus do Tribunal Penal Internacional. A questão é sabermos quantas vidas mais terão que ser sacrificadas até que o Brasil entenda que o justiceiro moralista que emergiu vitorioso das eleições de 2018 converteu-se em um genocida.

Foto: reprodução / Facebook

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