MESMO ABATIDO, PT PODE REDEFINIR RUMOS DA ESQUERDA

MESMO ABATIDO, PT PODE REDEFINIR RUMOS DA ESQUERDA

O jornalista Ricardo Kotscho escreveu um artigo, na semana passada, apontando dois graves problemas que os petistas ferrenhos se recusam a admitir: o envelhecimento do partido e a possibilidade remota de que a legenda eleja prefeitos nas principais capitais do País. Péssimas notícias para um partido que completou 40 anos, em 10 de fevereiro, e ocupou a Presidência da República por quatro vezes seguidas.

Kotscho discute o tema com propriedade. Ele foi assessor de Comunicação da primeira campanha de Luiz Inácio Lula da Silva, em 1989. É amigo do ex-presidente há quase 40 anos. Transitou entre grandes nomes do partido. E foi Secretário de Comunicação durante a primeira gestão de Lula na presidência da República. Como grande repórter e observador da cena partidária que é, Kotscho fala do que conhece, portanto.

Além dessas credenciais, o jornalista parte da verdade nua e crua dos números. Em nenhuma sondagem de opinião que mostra as preferências do eleitorado nas principais capitais, o PT lidera a corrida pela sucessão municipal. No campo da oposição, aliás, quem consegue esta façanha é apenas o PCdoB, em Porto Alegre, com Manuela d’Ávila.  O PT, lembra Kotscho, só lidera as pesquisas em Vitória (ES).

Na realidade, o problema da presença fraca do partido nas maiores capitais não vem de hoje. “Já na eleição municipal de 2016, o PT perdeu dois terços das suas prefeituras e só elegeu o prefeito de uma capital, Rio Branco, no Acre”, lembra o jornalista. Este problema é agravado pelo fato de que a sucessão municipal reflete o gosto dos eleitores por lideranças locais carismáticas e competitivas, o que o PT sempre teve dificuldade de criar, apesar da sua enorme capilaridade.

Para Kotscho, nem mesmo o programa veiculado pelo partido para festejar os 75 anos da sua principal estrela – o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva – foi suficiente para empolgar o que a legenda tem de melhor e poderia reverter este cenário: sua militância. Natural. Muitos dos outrora aguerridos militantes do PT cansaram e envelheceram. Já não contam mais com a animação dos comícios e das reuniões no movimento sindical – ambos enfraquecidos pelas mudanças nas regras eleitorais, pela explosão das redes sociais e pela cada vez maior fragilização dos sindicatos, outrora redutos inabaláveis do PT e dos partidos de esquerda de base operária.

O partido segue sendo a maior e mais importante legenda da oposição, mas não há dúvida nenhuma de que o distanciamento da legenda das suas bases, a exacerbação do Lulismo e da burocracia partidária, bem como a ausência de renovação dos seus quadros e da reformulação da sua agenda fizeram com que o PT não tenha o mesmo vigor dos anos 80 e 90.

Volto ao tema porque o artigo de Kotscho foi veiculado na mesma semana em que o jornal O Globo divulgou matéria informando que Lula e a principal liderança do PDT, o ex-governador e ex-ministro Ciro Gomes, decidiram selar uma trégua na sua tumultuada relação e se reuniram em São Paulo.

O inusitado encontro prova que está na hora de os radicais de ambos os partidos baixarem a guarda. Só a união da oposição, liderando um grande projeto desenvolvimentista de reconstrução nacional, poderá tirar o Brasil do caos em que o tsunami bolsonarista da extrema direita – somado à ignorância do povo – mergulhou o Brasil, a partir de 2016. A conversa entre Lula e Ciro é um primeiro grande passo nesta direção. Até porque, consolidada, poderá arrastar outras legendas.

Ainda que abatido, o PT tem papel fundamental neste processo, já que é a legenda com maior capilaridade e com alguns dos mais importantes quadros do campo democrático-progressista. Diante do que Bolsonaro tem sido, o PT é um mal menor. Logo, ou a oposição se une ou o Brasil terá que suportar mais 4 anos de Bolsonaro, a partir de 2022. Eis o desafio a ser superado.

Foto: Ricardo Stuckert / Instituto Lula

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