LULA REDEFINE O CENÁRIO ELEITORAL PARA 2022

LULA REDEFINE O CENÁRIO ELEITORAL PARA 2022

Até os peixes do Lago Sul de Brasília sabem que, veladamente ou não, a campanha para a sucessão presidencial de 2022 já começou. Absurdamente, foi deflagrada pelo próprio presidente Jair Bolsonaro, que – 11 meses após sua posse – mantém a retórica de candidato do PSL ao Palácio do Planalto, contrária ao PT e ao Comunismo, e não a de chefe de Estado da 9º economia do planeta.

Trata-se de uma manobra do atual ocupante do Palácio do Planalto para fidelizar seu eleitorado, que se torna cada vez menor diante do claro desinteresse do seu governo em resolver os problemas estruturais graves do Brasil, especialmente no campo social. Bolsonaro, basicamente, governa preocupado prioritariamente em garantir o apoio dos segmentos alinhados com sua candidatura – militares, grandes empresários, fazendeiros, evangélicos conservadores e o segmento da população que odeia o PT.  

Ele não é mais, porém, o único protagonista político efetivamente relevante no processo. Terá que dividir os holofotes da antecipação do processo eleitoral de 2022 com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Lula entrou de vez na rota sucessória com a sua libertação da cela que ocupava na Polícia Federal, determinada pela Justiça Federal, após corretíssima decisão do STF (Supremo Tribunal Federal) de acatar o Inciso 57 do Artigo 5º da Constituição Federal de 1988, segundo o qual “ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória”.

Logo na primeira hora após sua libertação, Lula discursou ao público presente à sede da PF, em Curitiba, criticando os responsáveis pela sua prisão – e, claro, o governo Bolsonaro. Com isso, deflagrou – no campo que domina com maestria, a Política – o processo que pretende conduzi-lo, pela terceira vez, ao Palácio do Planalto.

Será uma tarefa difícil, por razões de ordem meramente jurídica, ainda que não política. Lula foi enquadrado na chamada Lei da Ficha Limpa (Lei Complementar 135/2010), que impede a participação por oito anos, em processos eleitorais, de candidatos condenados por decisão de órgão colegiado, mesmo que ainda exista a possibilidade de recursos na Justiça.

Isto só não ocorrerá em duas situações: 1)Se Sérgio Moro for declarado pelo STF suspeito de ter sido parcial no julgamento de Lula, quando era juiz da Lava-Jato; e 2)Se as instâncias superiores do Judiciário anularem a condenação do ex-presidente pelo TRF-4ª Região (Tribunal Regional Federal da 4ª Região), em 24 de janeiro de 2018, por causa do triplex do Guarujá. Fora isso, Lula ainda enfrenta outros seis processos, que podem reenquadrá-lo na Lei da Ficha Limpa.

Porém, convém lembrar o óbvio, que o ódio ao ex-presidente e ao PT impede muitos de admitir: apesar de todos os seus defeitos, Luiz Inácio Lula da Silva prossegue sendo – incontestavelmente – a maior liderança popular do País. E provavelmente só não foi eleito presidente da República pela terceira vez, em 2018, porque estava preso. Afinal segundo pesquisa divulgada pelo Datafolha 45 dias antes do 1º turno da eleição, mesmo preso, Lula tinha inacreditáveis 39% da preferência do eleitorado; Bolsonaro, livre e solto, magros 19%.

Por esta razão, o papel que o ícone petista adotará, a partir de agora, será absolutamente decisivo. O PT sabe que, por causa da Lei da Ficha Limpa e da enorme resistência que ainda encontra entre setores conservadores do Judiciário, Lula dificilmente poderá ser candidato em 2022. Resta ao partido fazer o mais do mesmo: iniciar, imediatamente, a construção da narrativa de que Lula será candidato, em sucessivas caravanas por todo o País – para, ao final, lançar novamente a candidatura do ex-prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, na disputa.

Paralelamente a isso, caberá ao petista a missão igualmente difícil de unificar a esquerda brasileira, combalida pelo seu descolamento do movimento social. O obstáculo se revela ainda mais complicado na medida em que o principal nome da oposição depois de Lula, o ex-ministro Ciro Gomes (PDT), prossegue atacando duramente a cúpula petista e se recusando a permitir que o partido repita o cenário de 2018 e siga sendo protagonista na sucessão presidencial de 2022.

Ciro tenta, assim, pavimentar seu próprio caminho no campo da centro-esquerda, ciente de que a polarização entre Lula e Bolsonaro prosseguirá, o que tende a acirrar a irritação do outro terço da população que não se identifica com nenhum dos dois pré-candidatos. Tenta, ainda, evitar que o deslocamento do voto do eleitorado se dê para a centro-direita, onde dois nomes com forte adesão da elite econômica e política neoliberal permanecem torcendo para entrar em campo, à beira do gramado: o governador João Dória (PSDB) e o apresentador de TV Luciano Huck (sem partido).

O fato é: candidato ou não, nenhum pretendente ao Palácio do Planalto da centro-esquerda será vitorioso sem o apoio de Lula, que – sozinho – é dono dos votos de no mínimo 25% do eleitorado. Daí a razão da sua centralidade no processo eleitoral de 2022. Se esta centralidade levar à sua vitória e/ou à de seu candidato, é outra história. Mas a sucessão de Bolsonaro, definitivamente, ocupa novo patamar a partir de agora. Lula está no jogo – e veio para decidir. 

Foto: AF Rodrigues/Agência Pública

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