GOTHAM CITY É AQUI!

GOTHAM CITY É AQUI!

No caminho do cinema para casa, na última sexta-feira, quebrei a cabeça na tentativa de formular um texto adequado para definir a grandeza de “Coringa”, novo longa metragem do diretor e roteirista norte-americano Todd Phillips. Todas as versões dos textos que esbocei convergiram para o substantivo “obra-prima”. 

O longa é candidatíssimo ao Oscar de melhor filme, assim como Joaquin Phoenix (um gigante, na tela), ao de melhor ator. Faz sentido. Trata-se de um filme grandioso. Muito denso. Sombrio e perturbador. Contundente. Socialmente relevante. Brilhante no roteiro, na trilha sonora e na fotografia. 

Além de tudo, é absolutamente violento e brutal – ostensiva e figurativamente – como as vidas de tantos “jokers” que são excluídos pela sociedade individualista, preconceituosa, desigual e desumana que temos – aqui e acolá. Mais não falo, para não negar aos leitores do portal o direito de curtir cada cena do filme sem spoiler.

Dedico estes parágrafos iniciais ao longa, cuja trama se passa na lendária cidade fictícia de Gotham City, não sem motivos. É que “Coringa” é uma contundente metáfora da baixeza em que muitas vezes a humanidade se converte, a despeito das grandiosidades das quais somos capazes. 

Foi produzido, obviamente, exatamente com este propósito: chocar e fazer uma crítica duríssima não apenas ao modelo econômico excludente e injusto que vigora nos EUA, bem como nas nações capitalistas ocidentais, mas à própria degeneração da condição humana – e à nossa complacência com isso. 

É neste segundo aspecto que gostaria de me deter, neste artigo. Nossa tolerância à degeneração humana que testemunhamos todos os dias, nas ruas e nos campos, assusta. Triste e irônico que eu tenha assistido a um filme que trata deste tema na mesma semana em que somos protagonistas de um fato de extrema relevância, diretamente ligado ao quadro de miséria que apontamos no Brasil.  

Trata-se da canonização da irmã Dulce – religiosa baiana, falecida em 1992, que ficou conhecida no mundo todo por suas obras de caridade e de assistência aos pobres e aos necessitados. Irmã Dulce foi declarada oficialmente santa pelo papa Francisco, no Vaticano no último domingo (dia 13). Homenagem justíssima, ainda que tardia, a uma das maiores defensoras dos desfavorecidos da história recente da humanidade. 

O que a agora Santa Dulce dos Pobres diria se soubesse que, segundo dados de 2018 do

Instituto Trata Brasil, 35 milhões de brasileiros não têm acesso à água tratada em suas casas? Que inacreditáveis 100 milhões não têm coleta de esgoto? São números que, em um País sério, fariam seus governantes corarem de vergonha. 

Ainda mais porque, na prática, estes números se traduzemem um rol de problemas de saúde típicos dos países de Quarto Mundo – diarreias, verminoses, hepatite A, leptospirose e esquistossomose. Além dos dramas humanos causados pela falta de saneamento básico, este problema gera um custo elevado para a sociedade. Algo em torno de R$ 1,1 bilhão, gasto em internações, apenas entre 2010 e 2017.

Se o Brasil tem cerca de 210 milhões de habitantes, os números mostram que nada menos que 16% da população brasileira não têm acesso sequer a um dos direitos básicos de todos os cidadãos: água tratada. O que significa que uma quantidade de brasileiros quase do tamanho do Estado do Rio de Janeiro (o terceiro mais populoso do Brasil, atrás apenas e São Paulo e de Minas Gerais) precisa recorrer a caminhões-pipas e a serviços públicos de distribuição de água em comunidades carentes para beber e fazer tanto a sua higiene pessoal quando a limpeza das suas casas e bens.

Em um cenário como este, que coloca o Brasil distante das 17 metas previstas nos ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável) até 2030, não é de se surpreender que tenhamos o cenário de degradação material e moral retratado metaforicamente em “Coringa” e presente de maneira contundente nas sociedades norte-americanas e brasileira. 

Se às pessoas é negado sequer o direito de beber água potável em suas casas, a culpa é da incompetência e/ou da ineficácia das políticas públicas voltadas aos mais pobres e excluídos. Precisamos ter a coragem de enfrentar este problema, e logo, se quisermos nos tornar um país desenvolvido. “Coringa” é um tapa sem luva de pelica na baixeza moral de parte da sociedade norte-americana. Mas a verdade é que, tanto quanto lá, Gotham City também é aqui.

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