FELIPE NETO VERSUS ESQUERDA RADICAL

FELIPE NETO VERSUS ESQUERDA RADICAL

Os camaradas e companheiros radicais da esquerda brasileira merecem respeito por sua luta e militância, mas deveriam refletir sobre um dos seus mais recentes – e graves – pecados: a recusa em respeitar e dialogar com atores sociais importantes, mas sem histórico de lutas no movimento social ou nas instâncias partidárias.

A afirmação toma como base o festival de horrores protagonizado por este segmento da esquerda, nas redes sociais, por conta da corajosa posição defendida pelo influencer Felipe Neto contra Jair Bolsonaro e Donald Trump, em vídeo gravado pelo garoto especialmente para o The New York Times.  

De todas as críticas ácidas feitas contra Neto, duas merecem destaque: 1) O youtuber é um traidor da causa, já que apoiou o impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff.  2) Felipe Neto é um liberal burguês mais preocupado em colecionar cliques e compartilhamentos das suas postagens nas redes sociais, para ganhar dinheiro, que em fazer a revolução pelas mãos do proletariado.

O primeiro argumento é risível. Partidos que aceitam alianças com PHDs em ladroagem e em trairagem como Roberto Jefferson, Renan Calheiros e Michel Temer não têm autoridade moral para criticar o garoto. Ícones da elite corrupta e fisiológica do Congresso Nacional, não há nenhuma dúvida de que estes senhores têm parcela significativa de culpa pela gradual destruição do Brasil, pós-2013, porque apoiaram o golpe contra Dilma.

Mas há duas enormes diferenças entre esta quadrilha e Felipe Neto: 1) O garoto é honesto e 2) Felipe Neto teve a dignidade, a coragem e a humildade de pedir desculpas públicas pelos seus erros em relação ao golpe de 2016. Os demais, ao contrário, são ladrões de carteirinha e apoiariam novamente o impeachment da Dilma, se necessário, sempre na defesa dos seus interesses. 

O outro argumento, de que o garoto é um pequeno-burguês, é igualmente sofrível. Felipe Neto jamais se apresentou como líder do movimento social, integrante das camadas economicamente mais baixas da sociedade ou – menos ainda – como porta-voz da esquerda. Sempre disse ser alguém indignado com a desumanidade, o autoritarismo e a estupidez do presidente da República.

A cegueira política da esquerda radical leva-a a cometer graves equívocos. O primeiro é supor, por arrogância, que detém a hegemonia da narrativa da oposição. O segundo, por vaidade, é se fechar em bolhas partidárias e/ou ideológicas revolucionárias, recusando-se a uma aproximação com atores sociais importantes. Felipe Neto é um deles. Deveria aprender com o exemplo do ex-presidente Pepe Mujica, no Uruguai, que formou uma vitoriosa Frente Ampla para conquistar a vitória, a despeito da sua repulsa por muitos dos seus integrantes e das suas origens verdadeiramente revolucionárias.

A esquerda radical erra, portanto, ao supor que vai fazer a revolução com meia dúzia de gatos pingados enclausurados nas instâncias partidárias ou incrustados no movimento social. Deveria consultar as pesquisas que apontam os favoritos do eleitorado para 2022, nas quais os candidatos da esquerda patinam. E perceber que, nelas, Bolsonaro – apesar da sua inacreditável incompetência, irresponsabilidade, burrice e autoritarismo – ainda tem o apoio de aproximadamente 30% do eleitorado.

Isto significa que não haverá revolução proletária no Brasil a curto prazo e sem alianças estratégicas. Bolsonaro tem razão em ao menos uma coisa: somos um povo conservador. Mudar isso demora e exige termos o poder nas mãos, que implica em ampliação do diálogo com setores alinhados ao centro do espectro político. Isso não significa fazer concessões fisiológicas à direita, mas construir uma agenda mínima de desenvolvimento, que passa pelo diálogo com todos os segmentos e atores sociais relevantes.

Gostando ou não deste garoto, o fato é que Felipe Neto provavelmente faz mais pela conscientização política dos jovens, ao criticar Bolsonaro, que todos os partidos de oposição juntos. Não se pode desqualificar um sujeito que reconhece seus erros, tem a coragem de dizer verdades e possui mais seguidores – e provavelmente mais respeito também – que todos os políticos brasileiros.

Este moleque tem 38 milhões de seguidores no Youtube e inacreditáveis 10 bilhões de visualizações dos seus vídeos, segundo o portal Poder360. Para comparar: Bolsonaro tem pouco mais de 5 milhões. As eleições de Barak Obama, nos EUA, e de Jair Bolsonaro deveriam ter sido suficientes para fazer a esquerda entender o óbvio: não se pode subestimar o poder das redes sociais. Os tempos mudaram. Já não se faz mais militância nas ruas, associações, movimentos de base e sindicatos – estes muito fragilizados por conta da reforma trabalhista criminosa criada por Temer e implantada por Bolsonaro. A militância agora é, majoritariamente, virtual.

Por todos estes motivos, não há a menor dúvida de que, prosseguindo nesta toada, a esquerda míope vai prestar um enorme serviço ao presidente Jair Bolsonaro ao levá-lo a uma nova vitória, nas eleições de 2022. Custa a esta gente entender que seu inimigo comum tem nome e endereço: chama-se Jair Messias Bolsonaro, atual residente do Palácio da Alvorada. Felipe Neto é, portanto, um garoto que merece respeito e que, por sua extraordinária influência, deveria ser encarado com aliado – e não adversário – da causa. 

Foto: reprodução

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