DA NECESSIDADE DE SERMOS INTOLERANTES COM FASCISTAS

DA NECESSIDADE DE SERMOS INTOLERANTES COM FASCISTAS

Treze meses após a posse de Jair Bolsonaro na Presidência da República, nenhum brasileiro sensato tem dúvidas de que a democracia brasileira vive seu pior momento dos últimos 56 anos, se tomarmos o AI-5 (Ato Institucional 5) como o ponto máximo da truculência e do autoritarismo impostos pela ditadura militar que se instalou no Brasil, em março de 1964.

Neste pouco mais de um ano de mandato, Bolsonaro promoveu claros e graves retrocessos nas conquistas que os trabalhadores obtiveram, à custa de muito diálogo e de muita luta. Sobretudo na extinção e/ou redução dos assentos dedicados a representantes da sociedade em conselhos nacionais.

Foi no campo narrativo, porém, que os ataques de Bolsonaro à democracia se tornaram mais ameaçadores. Este processo se tornou evidente devido às críticas duras, ameaças (veladas ou não) e represálias impostas pelo presidente da República tanto em relação à imprensa quanto aos seus adversários, em todos os campos.

Nada disso, porém, deveria ser motivo de surpresa para os brasileiros. O viés autoritário e fascista de Bolsonaro tornou-se evidente já antes da campanha eleitoral, em muitos momentos. Especialmente quando o então deputado federal defendeu abertamente a ditadura militar – e, no auge da sua indigência moral e humanitária, elogiou o coronel Brilhante Ustra (o maior torturador do regime militar) na sessão do impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff, em agosto de 2016.  

Diante desta sucessão de aberrações, surge a pergunta sobre o motivo pelo qual chegamos a este ponto. Não é uma resposta fácil, mas não há nenhuma dúvida de que uma das razões principais para o seu surgimento foi a enorme e absurda tolerância dos brasileiros em relação ao autoritarismo e aos golpes contra a democracia.

Trata-se de um gravíssimo erro. Não se pode ser tolerantes com fascistas e suas narrativas preconceituosas, excludentes e violentas. Logo, não se pode garantir espaços privilegiados a este público. Isso nada tem a ver com ferir o direito de livre expressão dos cidadãos, mas de proteger os direitos da maioria, com base no que a Constituição Federal e a Declaração Universal dos Diretos Humanos estabelecem. Ou seja: o direito de uma minoria fascista de se manifestar não pode prevalecer sobre o da maioria de apenas existir com dignidade. 

Foi por tolerância ou pactuação com esta narrativa fascista – travestida de liberdade de expressão – que Bolsonaro se tornou um dos políticos mais conhecidos do País. Ele só ganhou dimensão nacional porque grandes veículos de comunicação, como a revista Veja, divulgaram o levante comandado pelo ex-capitão do Exército na sua luta por melhores soldos para a categoria, a partir de 1986.

Foi sua primeira (e gigantesca) exposição pública, que encorajou o militar a ser candidato vitorioso a vereador no Rio de Janeiro, em 1988, e depois a deputado federal por sete mandatos. Isso depois de ele ter confessado que planejou uma sucessão de atentados a quartéis para atingir seu objetivo de pressionar o Governo Federal e a cúpula do Exército a elevar os soldos dos militares. Tamanha bizarrice, que resultou na sua prisão, dispensa comentários.

A história de Bolsonaro pode muito bem ser explicada a partir da análise que a filósofa política alemã Hanna Arendt faz da expansão do autoritarismo no clássico “As origens do totalitarismo” (1951). Em um dos trechos, ela diz que, se uma sociedade que já possui substrato social autoritário não contém o avanço do totalitarismo, ele cresce ao ponto de não poder mais ser evitado.  O atual presidente da República cresceu tanto como ator político porque, ao ganhar espaços generosos da mídia (a mesma que hoje condena e persegue, duramente), tornou possível angariar os apoios dos quais precisava para se tornar o que seus seguidores chamam de “mito”. Bolsonaro não é só um produto do avanço do autoritarismo em escala mundial, mas de uma trajetória autoritária da Nação brasileira e da sua enorme tolerância (quando não complacência) com fascistoides de toda natureza. Pagamos caro agora, todos, por este erro.  

Foto: Reprodução da Revista Veja. Detalhe de página com texto de Jair Bolsonaro (na época, capital do exército) na seção ‘Ponto de Vista’, em 1986.

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