A SAÍDA DA FORD E O CALVÁRIO DAS PEQUENAS EMPRESAS

A SAÍDA DA FORD E O CALVÁRIO DAS PEQUENAS EMPRESAS

Enquanto a imprensa massifica o coro de lamentações pela decisão da fabricante de veículos Ford de fechar suas indústrias no Brasil, empresários de muito mais relevância para a economia brasileira agonizam: as pequenas empresas e os microempreendedores.

No primeiro caso, estamos falando de 6,5 milhões de pequenos estabelecimentos, segundo o Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequena Empresas) – 99% do total existente no País. Juntas, estas empresas respondem por nada menos que 54% dos empregos com carteira assinada no setor privado, o que equivale a cerca de 17 milhões de vagas.

Já os microempreendedores somam 9,7 milhões de pessoas. Se somarmos o número de vagas no mercado de trabalho geradas pelas empresas pequenas ao de microempreendedores, chegamos à extraordinária soma de quase 24 milhões de trabalhadores.

Trata-se de um contingente muito acima do total de vagas ocupadas existentes, por exemplo, no setor automotivo. A título de comparação: de acordo com a 14ª carta de conjuntura do Observatório de Políticas Públicas e Empreendedorismo da Universidade Municipal de São Caetano, o setor automotivo do ABC Paulista (o coração do segmento no Brasil) emprega 40,4 mil trabalhadores – 47,1% a menos que o número existente em 31 de dezembro de 2010.

A razão para esta distorção nos números é simples: em crescente processo de automatização, as fábricas de automóveis empregam cada vez menos. Portanto, mesmo com as vendas em alta, não geram, necessariamente, muitos empregos. É verdade que a pandemia da covid-19 afetou as vendas do setor em 2020, mas não no ano anterior. Segundo a Fenabrave (Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores), houve um aumento de 10,48% das vendas de veículos novos em 2019 (com 4.036.303 de unidades), em comparação ao ano anterior.

Logo, ao contrário do que dizem os fabricantes de veículos, o setor não é o pote de ouro, em termos de geração de empregos. A verdade é que um hospital grande gera mais empregos que qualquer fábrica de automóveis no Brasil – e cumpre, obviamente, papel social muito mais relevante. Não é diferente com as pequenas empresas e microempreendedores.

A despeito disso, porém, as pequenas empresas e os microempreendedores têm sido sistematicamente boicotados pelo Governo Federal – leia-se o ministro da Economia, Paulo Guedes. De acordo com o presidente do Sebrae, Carlos Melles, pelo menos 50% dos micros e pequenos empresários sequer buscaram recursos do programa criado pelo governo para apoiá-los em tempos de covid. Dos que procuraram, só 22% conseguiram – 15% do total. Culpa da burocracia dos órgãos de fomento do governo na liberação dos recursos.

Isso explica a quebradeira geral dos pequenos, em tempos de pandemia. Diante do grave cenário de crise econômica causado pela covid-19 e da incompetência do Governo Federal para garantir crédito e proteção social ágeis e eficientes aos microempreendedores, não lhes restou outra alternativa a não ser fechar as portas e tentar sobreviver com outras atividades.

Mais que gerar receita para a União, os Estados e os municípios, as pequenas empresas e microempreendedores cumprem um importante papel social, na medida em que absorvem mão de obra local, ainda que sem grande qualificação. Isto é importantíssimo para garantir que mesmo cidadãos com menor acúmulo de estudo tenham a oportunidade de sobreviverem e se tornarem parte do mercado formal de trabalho.

Não se trata de satanizar as grandes montadoras de veículos pelo fato de cultivarem sua política de reivindicação de incentivos fiscais para a instalação de plantas industriais nos Estados, mas de valorizar os pequenos e microempreendedores. Tudo o que o Governo Federal não fez, nos últimos 2 anos, elevando a taxa de desemprego dos atuais 14% para possíveis 17%, até o final de 2021. Uma tragédia à brasileira.

Foto: Marcello Casal Jr. / Agência Brasil

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