A LÓGICA KAMIKAZE DE CIRO GOMES

A LÓGICA KAMIKAZE DE CIRO GOMES

A sucessão de erros crassos cometidos por Jair Messias Bolsonaro, em praticamente todos os campos, antecipou a sucessão presidencial de 2022. Já se sabia que as posições de extrema direita do presidente da República e de seus aliados, pouco afetos ao diálogo tanto com a sociedade quanto com o Congresso Nacional e adeptos de uma necrofilia neoliberal insensível às demandas populares, fragilizariam o Governo Federal.

Só não se sabia que este processo seria iniciado tão cedo e de maneira tão contundente pelos adversários do presidente, em todos os campos ideológicos. Em especial, pelo  mais agressivo opositor de Bolsonaro no campo da centro-esquerda: o ex-ministro e ex-governador do Ceará Ciro Gomes (PDT), tema deste artigo. 

A libertação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva responde, em boa parte, pela antecipação do calendário eleitoral de 2022, que citamos acima. Mesmo impedido de disputar as próximas eleições pela Lei da Ficha Limpa, uma vez que já foi condenado em segunda instância no caso do triplex de Guarujá, o protagonismo de Lula no cenário político incendiou a sucessão em um território que o ex-presidente maneja com maestria: a oposição.

Ocorre que este espaço já não é mais privativo do lulopetismo. Dono de 12,47% dos votos válidos na eleição de 2018, do mais consistente currículo na administração pública, entre os pré-candidatos a presidente, e de uma narrativa tecnicamente qualificada e duríssima contra seus adversários, Ciro Gomes se dedica a convencer o eleitorado a optar por uma “terceira via” – longe do Bolsonarismo e do Lulismo, portanto.

É uma tarefa difícil. Mesmo que não possa contar com Lula como candidato em 2022, o PT – com o ex-prefeito de São Paulo, Fernando Haddad – fez 29,28% dos votos válidos no primeiro turno da eleição de 2018. A libertação do ex-presidente, que faz campanha aberta pela reconquista do Palácio do Planalto pelo PT nas próximas eleições, pode ampliar este percentual. Já Bolsonaro, ainda que enfraquecido, fez 46,03% dos votos válidos no primeiro turno, em 2018, tem a generosa máquina pública à sua disposição e um séquito de eleitores radicais ainda muito significativo.

Na lógica político-matemática de Ciro Gomes, o número de votos em disputa chega a 50% e é formado por um eleitorado que tem aversão tanto ao Bolsonarismo quanto ao Lulismo. Partindo desta premissa, o pré-candidato do PDT vem subindo gradualmente o tom das suas críticas à dupla desde que foi derrotado, no primeiro turno das eleições presidenciais de 2018. 

Exagerado, afirma que Lula e Bolsonaro são faces da mesma moeda. Virulento, ataca a cúpula diretiva petista, que compara a uma quadrilha. Rigoroso, cobra do PT uma autocrítica que jamais virá – até porque o Partido dos Trabalhadores entende, com razão, que já vem sendo torturado em praça pública, pelos principais veículos de comunicação de massa, desde sempre – especialmente a partir de 2014 (com o início da Operação Lava Jato) e, de forma mais intensa, a partir de 2015 (com as primeiras manifestações contra o governo da ex-presidenta Dilma Rousseff).

O fato é que a narrativa duríssima de Ciro pode provocar efeito contrário ao desejado pelo candidato do PDT a presidente. Mas não exatamente pelo seu conteúdo, e sim pela sua forma. O eleitorado que Ciro deseja vota em pessoas, muito mais que em partidos. E, se não gosta dos governos de Bolsonaro e de Lula, já que acusa o primeiro de ser obtuso e o segundo de ser desonesto, gosta tampouco de extremismos retóricos.   

O tom excessivamente agressivo da sua narrativa tem servido, até o momento, para reforçar uma imagem – injusta – da qual Ciro tem dificuldades de se livrar: a de “coronel do Nordeste”. E contribuído para tornar ainda mais distante a união das oposições, já fragilizada pelo personalismo de Lula e por sua insistência em colocar o PT no protagonismo da oposição.

Não que isso seja uma novidade na Política brasileira. A centro-esquerda é fragmentada desde a primeira eleição presidencial após o processo de redemocratização do Brasil, em 1989, quando lançou nada menos que seis candidatos à sucessão de José Sarney: Luiz Inácio Lula da Silva, Leonel Brizola (PDT), Fernando Gabeira (PV), Roberto Freire (PCB) e Manoel Horta (PCdoB). Esta variedade de candidatos sinaliza apenas o óbvio: o pluralismo da esquerda, que está longe de ser ruim.

O discurso duro de Ciro, porém, tende a isolá-lo na arena política, até porque o único  partido adversário do presidente Jair Bolsonaro que caminha longe do PT no cenário nacional é o PDT. Todos os demais – o PSOL de Guilherme Boulos e o PCdoB de Manuela  d’Ávila – gravitam ao redor de Lula. Com isso, tende a empurrá-lo para alianças com partidos de centro e centro-direita que se alinharam a Bolsonaro em 2018 e que consideram o candidato do PDT pouco confiável. Aliar-se a eles, portanto, é uma aposta no mínimo arriscada.

Fora isso, a postura excessivamente agressiva de Ciro pode lançar o eleitorado de centro-direita no colo do governador de São Paulo, João Dória (PSDB), e/ou no do apresentador de TV Luciano Huck (sem partido), que adotam um discurso moderado e conciliador – palatável para a elite econômica e amplamente aceito pelo eleitorado das classes média e alta.

Não há dúvida nenhuma de que Ciro Gomes é um dos melhores quadros da política brasileira. Mas, por mais correto que esteja em muitas das suas duríssimas críticas a Bolsonaro e a Lula, sua narrativa excessivamente contundente pode afastá-lo do eleitorado mais moderado e não ser suficiente para garantir o apoio que deseja. O candidato do PDT tem dito que 2022 será sua última aventura presidencial – a quarta. A julgar pela lógica kamikaze que adota, Ciro pode ter razão.   

Foto: José Cruz/Agência Brasil

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