A INCRÍVEL FÁBRICA DE SONHOS DE BOLSONARO

A INCRÍVEL FÁBRICA DE SONHOS DE BOLSONARO

A oposição ao Governo Federal reagiu com espanto à notícia de que, mesmo depois de o País registrar 52 mil mortos pela Covid-19 e da sucessão de aberrações cometidas pelo ocupante do Palácio do Planalto desde sua posse, 32% dos brasileiros ainda acham que Bolsonaro faz um ótimo governo. O número consta de pesquisa divulgada pelo instituto Datafolha, no último dia 26 de junho, realizada logo após a prisão de Fabrício Queiroz – ex-braço direito do filho mais velho do presidente, o senador Flávio Bolsonaro.

É verdade que, segundo a mesma pesquisa, o número de pessoas que considera o governo Bolsonaro ruim ou péssimo subiu de 38% (em abril) para 44% – e isso com apenas 1,5 ano de mandato. Mas, mesmo assim e considerando-se a avalanche de críticas que seu desempenho desastroso recebeu da mídia, o presidente ostenta números robustos e consolidados de apoio. Tanto que, na sondagem feita em abril, Bolsonaro recebeu 32% de ótimo/bom.

Como o voto do brasileiro médio prossegue sendo muito mais pessoal que partidário  e/ou ideológico, só razões de ordem antropológica e sociológica podem explicar a insistência de 32% dos brasileiros em apoiar um presidente que está exercendo o pior governo da fase mais recente da República.

O apoio maciço a Bolsonaro se sustenta, basicamente, porque seu séquito irredutível se identifica com o homem ignorante, autoritário, grosseiro, insensível, arrogante e irresponsável que preside a Nação. Diferente do que afirmaram, ao justificar seu voto no atual presidente, no segundo turno das eleições de 2018, não se trata somente de gente preocupada em extirpar o PT e a corrupção.

Na perspectiva sociológica, o apoio a Bolsonaro pode ser explicado, por exemplo, como decorrência do que Pierre Bourdieu define como a “violência simbólica”. Para ele, grosso modo, as pessoas aceitam e legitimam passivamente (com seu discurso e suas práticas) a enorme carga simbólica conservadora imposta pela classe dominante para se manter no poder e continuar oprimindo a massa.

Assim é que, nesta interpretação, aplicando o conceito ao cenário atual da Política brasileira, as pessoas garantem sustentação a Bolsonaro porque ele faz e diz o que grande parte delas faz e pensa, mas não tem coragem de admitir. Ou não tinha, já que as redes sociais revelaram todos os horrores do submundo ideológico que define o “bolsonarismo-raiz”. O presidente, enfim, tangibiliza o discurso e a prática do seu eleitorado mais radical. É, portanto, não apenas o governante do País onde vivem seus seguidores mais ferrenhos, mas seu espelho moral e cultural.

O grau de fidelidade desse grupo e os números ainda tímidos dos candidatos da oposição nas pesquisas que apontam os favoritos do eleitorado para a sucessão presidencial de 2022 sugerem que somente a criação de uma frente ampla da oposição – formada por todos os partidos e organizações progressistas da sociedade civil – pode gerar um candidato competitivo, diante de Bolsonaro.

Destruir a fábrica de sonhos bolsonarista só será possível, porém, se o grupo conseguir formular um projeto de governo consistente, capaz de expandir sua rede de apoios – incluindo o empresariado e parte do segmento hoje refratário às esquerdas. Mas, acima de tudo, a oposição precisa elaborar um plano de capilarização do seu projeto, focado no grosso do eleitorado: as classes com faixa de renda média-baixa e baixa.

Poderia se espelhar, por exemplo, no Uruguai, em 2010, quando Pepe Mujica venceu as eleições presidenciais por meio da formação da mais ampla coalizão já realizada no País. Hoje, porém, esse modelo é utópico no Brasil por força das irreconciliáveis divergências da oposição, a despeito da nova live, no dia 26 de junho, do movimento “Direitos Já”, que reúne lideranças do PT, PDT, PCdoB, PSol, PSDB, Cidadania, OAB, artistas, intelectuais e demais partidos.   

O fato é: a manada radical bolsonarista sempre existiu, ainda que com outra configuração. Apenas não havia sido agregada por força da satanização imposta durante 4 anos ao PT (e seu aliados) pela grande mídia e pela Lava Jato. Não será quebrada, portanto, a curto prazo. Estas pessoas continuarão dividindo seu cotidiano conosco, com Bolsonaro ou com outro nome que represente seu ideário. O desafio das oposições, portanto, é muito mais grave que imaginam: não só derrotar Bolsonaro, mas tudo o que ele representa, todos os dias. Não será tarefa das mais fáceis, como denunciam as pesquisas.

Foto: Wilson Dias / Agência Brasil

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