A ESTÁTUA DA HAVAN, O NEOCONSERVADORISMO E A ESPETACULARIZAÇÃO DA POLÍTICA

A ESTÁTUA DA HAVAN, O NEOCONSERVADORISMO E A ESPETACULARIZAÇÃO DA POLÍTICA

Não é segredo para ninguém que muitos neoconservadores radicais brasileiros são dados ao grotesco, ao extremismo, ao mau gosto, à truculência. Compreensível. Refratários à dialética, à racionalidade, à prática democrática e ao consumo de boa literatura política, esta gente de mente pequena faz do bizarro seu modus operandi para defender ideias esdrúxulas e angariar prosélitos.

De quem falamos, afinal? Os neoconservadores radicais brasileiros constituem uma versão nova e consideravelmente mais tosca do movimento surgido no final dos anos 70, nos EUA, que se opunha duramente ao Comunismo e garantiu a vitória de arautos do imperialismo, como George W. Bush.

O movimento é marcado por um substrato de aberrações ideológicas e anacrônicas, quando não antagônicas. Toma como base uma narrativa extremada ora nacionalista, ora privatista, somada ao anticomunismo, ao pseudomoralismo, ao belicismo, ao autoritarismo e à apologia da violência.  

A partir desta base ideológica surreal, o neoconservadorismo nacional é constituído de uma fauna variada. Inclui desde os mais inflamados usuários da camisa da CBF que foram às ruas pedir o impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff e o fim da corrupção, a partir de 2013, até os bolsonaristas que identificam no presidente da República um novo Messias e ainda os que defendem aberrações como a “intervenção militar constitucional”.

Citamos os neoconservadores radicais por força de um fato que representa, possivelmente, a mais tosca manifestação do grupo, ocorrida em 17 de novembro. Dois dias depois de o Brasil festejar os 130 anos da República, um grupo de manifestantes – eleitores radicais de Jair Bolsonaro – decidiu protestar contra a decisão do STF (Supremo Tribunal Federal) de acabar com a prisão em segunda instância.

Para isso, cantaram o Hino do Exército e bateram continência diante da réplica da Estátua da Liberdade localizada em frente à loja da Havan da cidade de Araçatuba, no Interior de São Paulo. A Havan, como se sabe, pertence ao bilionário empresário catarinense Luciano Hang, famoso por ser o mais entusiasta bolsonarista do meio empresarial, por suas dívidas de R$ 168 milhões com o Fisco, pelo assédio moral que impôs aos colaboradores da empresa durante as eleições em 2018, pelo uso de terno e gravata verde e amarelo e por seus vídeos bizarros em defesa do nacionalismo e do neoliberalismo. 

Mas isto não é tudo. Em outro momento deplorável do núcleo duro do bolsonarismo, o deputado federal Coronel Tadeu (PSL-SP) arrancou da parede e lançou ao chão, em um dos corredores da Câmara Federal, peças de uma exposição intitulada “(Re) existir no Brasil. Trajetórias Negras e Brasileiras. Racismo é crime”. De autoria de Carlos Latuff, os quadros mostram um policial militar de costas, portando uma arma de fogo, afastando-se do corpo de um homem sobre o qual estava a bandeira do Brasil. Isto tudo na mesma semana em que o Brasil celebrou o Dia da Consciência Negra, em 20 de novembro.

A História ensina que não se deve desprezar estas excentricidades políticas, que nada têm de engraçadas porque são estúpidas, abjetas – e até criminosas. Os movimentos extremistas de direita que chegam ao poder nascem de matrizes de radicalização, de irracionalidade e de vulgarização na Política. Foi assim com o Nazismo na Alemanha, em 1933, e com o Fascismo na Itália, em 1922. Movimentos surgidos de discursos e de práticas lastreados em populismo barato e em manifestações públicas inflamadas de extrema direita, calcadas em nacionalismo de fachada, sustentadas pelos genocidas e psicopatas Adolf Hitler e Benito Mussolini e seus seguidores.

É muito pequena a distância que separa protonazistas e protofascistas de fanáticos nacionalistas descerebrados (que batem continência a uma Estátua da Liberdade fake e vangloriam o Exército, mesmo sabendo que a ditadura militar matou e perseguiu milhares de pessoas no Brasil) e de militares violentos que querem gerar milhares de likes nas redes sociais brincando com assuntos gravíssimos como o racismo.

O problema é que estes extremismos encontram eco no Brasil. Não é à toa que a antropóloga Adriana Dias, da Unicamp, identificou a existência de 334 células de grupos nazistas no país, boa parte delas caracterizadas pelo mesmo extremismo que marca os dois grupos.

O mecanismo que leva a este cenário de práticas bizarras cometidas pelas viúvas da ditadura militar e, sobretudo, por muitos políticos de extrema direita é descrito pelo cientista político Adrian Dib Chagra, da Universidad Nacional y Universidad Católica de Salta, no debate que o autor faz sobre o que chama de “campanhas eleitorais permanentes”.

Nele, Chagra cita a preocupação de segmentos da classe política de se manter sempre com alto grau de exposição pública, mesmo fora dos períodos eleitorais, por meio da espetacularização dos seus atos e do seu ingresso na onda midiática do “infoentretenimento”. Nesta onda, a qualidade da notícia (e até mesmo sua veracidade) importa menos que o formato e sua característica de chamar a atenção do receptor da mensagem-eleitor a qualquer custo.

Na esteira deste processo, o debate e a leitura de denso material teórico sobre Política – normal, em organizações partidárias democráticas – é substituído pelo consumo imediatista de fake news, de informações rasas trocadas in loco ou por meio das redes sociais. Tudo sem reflexão séria e sem confronto de ideias, temperado por manifestações ostensivas de violência (no caso do deputado) ou de nacionalismo barato (no caso dos manifestantes bolsonaristas).

Política, porém, não pode ser joguete na mão de oportunistas e nem de extremistas acéfalos – com ou sem mandato. A História saberá cobrar, com juros e correção monetária, os absurdos excessos que esta gente tem cometido, em nome da defesa de uma moralidade e de um patriotismo que provavelmente nunca tiveram. A verdade triunfará. 

Foto: Reprodução Twitter

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