A DITADURA BOLSONARO E A OMISSÃO DE MAIA

A DITADURA BOLSONARO E A OMISSÃO DE MAIA

A revista Piauí veiculou matéria da repórter Monica Gugliano, na semana passada, dando conta de que o presidente da República queria destituir – com o uso de tropas militares – a cúpula do Supremo Tribunal Federal. “Vou intervir!”, disse Bolsonaro, na já folclórica reunião de 22 de maio.

O estopim da posição do ocupante do Palácio do Planalto foi a informação de que o ministro Celso de Mello havia consultado a Procuradoria-Geral da República para saber se deveria determinar a apreensão do celular do presidente e do seu filho Carlos Bolsonaro, vereador na cidade do Rio de Janeiro.

Foi a mais dura das muitas contrariedades e derrotas impostas ao presidente pelo STF que, entre outras coisas, havia impedido a posse do seu amigo Alexandre Ramagem como diretor-geral da Polícia Federal.

Ainda de acordo com a reportagem, pensando em adotar reação duríssima ao que entendia ser uma postura de afronta ao presidente da República, Bolsonaro queria retirar à força os atuais ministros do STF e substitui-los por aliados civis ou militares, que ficariam no cargo “até que aquilo esteja em ordem”, justificou. A despeito da sua bizarrice, a posição do presidente recebeu o apoio do ministro-chefe da Secretaria de Governo, Luiz Eduardo Ramos.

Mas não seguiu adiante, como se sabe, por um motivo que nada tem a ver com a tomada de consciência do presidente diante do absurdo que propôs. Bolsonaro desistiu da ideia porque não se confirmou a informação de que o ministro Celso de Mello determinaria a apreensão do celular do presidente e do seu filho do meio, Carlos. 

A longa introdução que faço neste artigo é necessária para deixar claro do que se trata, sem meias palavras: o caso gravíssimo de um presidente da República que queria aplicar um golpe de Estado contra uma das instituições basilares da democracia. Nada menos que o órgão máximo da Justiça e do Poder Judiciário brasileiro.

Mas este não foi o único fato da agenda política nacional absolutamente chocante, ao longo da semana. Durante entrevista ao jornalista Tales Faria, do Portal UOL, o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), afirmou que o impeachment de Bolsonaro deve ser tratado com “cuidado” e que seus adversários devem evitar polemizar em relação ao tema.

“A gente não pode colocar mais lenha na fogueira. Da mesma forma que eu acho que essas manifestações que atacam as instituições democráticas são gravíssimas, uma decisão de impeachment precisa ser muito bem avaliada para que a gente não gere mais conflitos e mais crise política no Brasil”, disse, textualmente, o comandante da instituição que representa os 210 milhões de brasileiros e à qual compete exatamente conter, no plano político, os danos provocados por eventuais abusos causados pelo Poder Executivo Federal.

Trata-se do mesmo homem que apoiou, aliás, o impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff por ter cometido “pedalada fiscal” – um crime equivalente ao roubo de doce por criança em banca de revista, quando comparado à sucessão de gravíssimos equívocos gerenciais e políticos cometidos por Bolsonaro.

A frase de Maia foi dita no momento em que a Câmara dos Deputados coleciona cerca de 30 pedidos de impeachment, denunciando pelo menos 15 crimes de responsabilidade cometidos pelo presidente da República, inclusive o apoio explícito a grupos que defendem o fechamento do Congresso Nacional e a implantação de uma nova ditadura militar no Brasil.

A postura de Maia não deixa mais dúvidas de que, por trás do seu verniz republicano e a despeito das várias críticas que fez aos sucessivos ataques de Bolsonaro ao Congresso Nacional, o presidente da Câmara emite suas opiniões sobre o capitão ao sabor das conveniências e dos interesses pessoais.

Agindo com este teor de omissão e de fisiologismo descarado, Rodrigo Maia dá provas inequívocas de que trabalha para ter o apoio do Planalto ao seu projeto de ser novamente presidente da Casa. Para atingir este objetivo, porém, precisa superar dois obstáculos: mudar o Regimento da Câmara, que impede a sua reeleição, e angariar o apoio do “Centrão”, que hoje constitui o núcleo-duro de Bolsonaro na Casa.

Em um País sério, a ameaça feita pelo presidente da República na fatídica reunião de 22 de maio, por si só, constituiria motivo para o impeachment do dirigente da Nação ou no mínimo a deflagração de um escândalo político porque é uma gravíssima ameaça à democracia, conquistada a duras penas pelo povo.

Aqui, porém, a declaração é naturalizada por muitos, como ocorre com as mortes de mais 100 mil brasileiros pela Covid-19. Rodrigo Maia é um deles. Flerta, assim, com o fascismo e dobra-se à ditadura eleita pelo voto instalada por Jair Messias Bolsonaro, desde janeiro de 2019. Será julgado duramente pela História por sua omissão, irresponsabilidade e casuísmo.

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

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