A CRISE HÍDRICA SERÁ A PRÓXIMA TRAGÉDIA PÓS-COVID-19

A CRISE HÍDRICA SERÁ A PRÓXIMA TRAGÉDIA PÓS-COVID-19

A humanidade deveria prestar mais atenção no documentário “Brave Blue Word”, que a Netflix está exibindo na sua grade de programação. Produzido por Tim Neeves e Alexander Whittle, o documentário é estrelado por Matt Damon, Jaden Smith e Liam Neeson. Denuncia um problema que se avoluma e que, provavelmente, vai dominar a agenda ambientalista da era pós-Covid: a crise hídrica mundial.

Ao mesmo tempo, porém, aponta soluções tecnicamente baratas e eficientes para resolver a falta de água ao redor do mundo. Inclusive em países em desenvolvimento, como a Índia. É sua melhor parte: em vez de fazer catastrofismo com um problema que já afeta 1 bilhão de pessoas na Terra, o documentário sinaliza que a humanidade ainda pode reverter a tragédia anunciada que se desenha no horizonte em relação ao tema da falta de água nas torneiras e florestas.

Falemos do Brasil. O País vive, simplesmente, a pior crise hídrica da sua História. Antes restrita ao sertão nordestino, a estiagem severa atinge até regiões inimagináveis, por força dos seus extraordinários recursos hídricos, como o Sul e o Sudeste. O problema já seria grave em um País parco em recursos naturais, mas se torna bizarro e inadmissível em se tratando de uma Nação com 12 bacias hidrográficas, a maior floresta  tropical do planeta (Amazônica), o rio mais caudaloso do mundo (Amazonas), o 5º maior território e ainda a 16ª maior extensão litorânea da Terra.

Obviamente, não se pode debitar na conta de Jair Bolsonaro a única culpa pelo problema, mas é certo que o atual presidente da República – amparado por Ricardo Salles (o pior ministro do Meio Ambiente da História do Brasil) – vai passar aos anais da República como o ocupante do Palácio do Planalto mais pernicioso em relação à principal causa da crise hídrica: a destruição da cobertura vegetal brasileira.

Os números de 2020 assustam e denunciam o gigantismo do problema. De acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), os dados da destruição das matas são: 88% na Mata Atlântica, 54% na Caatinga e no Pampa, 49% no Cerrado, 20% na Amazônia e 15% no Pantanal. E a derrubada da mata nativa cresce a cada dia, por força das queimadas e da absoluta irresponsabilidade do governo no combate ao problema.

Para agravar o quadro, segundo a ANA (Agência Nacional de Águas), de cada cem litros de água consumidos, 72 são usados na irrigação agrícola, sobretudo a de larga escala. E a professora-doutora Lana Magalhães, da Universidade Estadual do Amazonas, cita outro dado preocupante: 62% da energia do Brasil é gerada em usinas hidrelétricas. Isso significa que, se a crise hídrica persistir, o país terá dificuldade para gerar energia elétrica.

Há outros dois aspectos delicados e quase intransponíveis que aumentam a crise hídrica, na medida em que dependem de um esforço coletivo, que está longe de acontecer. Um deles é o crescimento populacional, que fez a população brasileira aumentar mais de 4 vezes apenas nos últimos 50 anos. O outro é o consumo desordenado de água, já que grande parte do povo simplesmente não quer – ou não sabe – economizar.

Há ainda um último problema, igualmente grave: a ausência do Estado no enfrentamento da questão, seja por forçada sua omissão no desenvolvimento de amplas campanhas de conscientização da população quanto ao consumo do bem natural, seja por sua incapacidade/desinteresse de incentivar a Ciência e o setor privado na criação de inovações tecnológicas baratas, caseiras e  eficazes para o aproveitamento da água da chuva e dos esgotos, por exemplo.

Não é o só o Brasil que precisa criar vergonha na cara e encarar este problema com urgência e seriedade, antes que as fontes de água sequem e a crise hídrica se torne irreversível. De acordo com o Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, o mundo consumiu inacreditáveis US$ 1,73 trilhão com o setor militar em 2019 – um aumento de 4% em relação ao ano anterior. A menos que a humanidade considere possível beber tanques de guerra, projéteis e porta-aviões, terá que achar uma solução para o problema. E já.

Foto: Sérgio Vale / Amazônia Real

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