A ATOMIZAÇÃO DA ESQUERDA PAVIMENTA O CAMINHO DA CENTRO-DIREITA PARA 2022

A ATOMIZAÇÃO DA ESQUERDA PAVIMENTA O CAMINHO DA CENTRO-DIREITA PARA 2022

Isolados por força da pandemia da Covid-19, setores da oposição a Jair Bolsonaro estão apostando fortemente nas redes sociais e na grande mídia para exercer sua militância política e fazer frente aos desmandos do Governo Federal. Sensato e necessário, do ponto de vista sanitário, diante da urgência do distanciamento social e do aumento em progressão geométrica do número de mortos pela doença.

Sua lógica é simples: embora reconheça a importância de ocupar as ruas, tomadas em parte por grupelhos de bolsonaristas radicais, a oposição se vê diante do impasse de ter que sustentar seu discurso em defesa do distanciamento mesmo sabendo que perde terreno no campo de batalha. Faz sentido. Afinal, na intenção de fidelizar o segmento do empresariado que constitui a sua base de apoio, Bolsonaro defende a liberação geral de todas as atividades e o fim do distanciamento. 

Ocorre que a militância apenas virtual acentua um grave problema enfrentado pela esquerda brasileira, especialmente nos últimos tempos: sua atomização. Um isolamento que já é grave por conta de divergências que, após o segundo turno das eleições de 2018, separaram os dois principais partidos de oposição a Bolsonaro (o PT de Luiz Inácio Lula da Silva e o PDT de Ciro Gomes) e todas as legendas-satélite do campo da esquerda e da centro-esquerda: PC do B, PSOL, PSB e Rede.  

O isolamento circunscreve a um grupo restrito tanto a produção de conteúdo, alavancado pelos operadores de SEO e pela rede privada de comunicação virtual da esquerda, quanto a sua assimilação pela população. Afinal, em média, de acordo com pesquisa divulgada em 2019 pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), apenas 76% da população brasileira têm acesso à internet. Na classe C, que representa o grosso do eleitorado, este percentual cai para 48%.

Fora isso, a agenda Política está longe de ser seu principal interesse nas redes sociais. Para que se tenha uma idéia, dos dez temas mais procurados no Google pelos internautas brasileiros em 2019, todos estavam relacionados a temas como a cultura e o esporte. Nenhum à Política, portanto. Isto significa que, salvo a minoria de eleitores com interesse pelo tema, a grande maioria das pessoas foge dos políticos nas redes sociais.

Ainda mais aqueles identificados com os temas-tabu tão bem explorados e manipulados ao sabor das fake news por Bolsonaro na campanha eleitoral de 2018. O Comunismo e a corrupção, por exemplo. Por causa da demonização sofrida pelo PT em função da Lava Jato e da descomunal ignorância política de grande parte dos brasileiros, estes temas-tabu foram associados às legendas da oposição.  Não será fácil desconstruir esta narrativa tão cedo.

Neste sentido, é inconsistente – para não dizer equivocada – a avaliação do ex-ministro Ciro Gomes (PDT), por exemplo, de que seu discurso tem grande chance de obter aderência junto ao segmento do eleitorado que busca alternativa fora da polarização criada pelo duelo entre bolsonaristas e petistas. Primeiro, pelos fatores apontados acima.

Segundo, porque não há correlação automática entre a rejeição a estas duas correntes de pensamento e um candidato da centro-esquerda com o perfil do líder máximo do PDT. O próprio perfil do pedetista, ainda fortemente identificado com a esquerda (porque foi ministro de Lula), atrapalha esta conexão. Além disso, depois dos graves erros cometidos pelos governos petistas e pelos 17 desastrosos meses de gestão de Bolsonaro, o eleitor pode simplesmente preferir o caminho da neutralidade e do voto nulo ou as abstenções em 2022. Foi assim em 2018, aliás, quando os percentuais de nulos, brancos e dos que se abstiveram de votar atingiram recorde – 30%, no segundo turno.

Na prática, o discurso de Ciro é mais um aceno retórico a um segmento do eleitorado cujas escolhas são uma incógnita para a oposição. Uma coisa é certa, porém: este público não será conquistado apenas com discursos que ecoam somente nas redes sociais. Com ou sem Covid-19, a oposição terá que ocupar as ruas para enfrentar a turba pequena, mas ruidosa, de Bolsonaro. E também para pressionar o Congresso Nacional e o STF (Supremo Tribunal Federal) a engolir o impeachment do presidente. Tarefa árdua, desde sempre, mas especialmente difícil em tempos de pandemia e de recolhimento tático da oposição no seu habitat.

Foto: Reprodução

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *