A GRANDE MÍDIA PRECISA FAZER SEU MEA CULPA

A GRANDE MÍDIA PRECISA FAZER SEU MEA CULPA

A grande mídia brasileira conseguiu a proeza de unir governo e oposição em torno de uma crítica absolutamente necessária: a parcialidade de grande parte dos conglomerados de mídia e sua absoluta ausência de compromisso com o interesse público, ambas escoradas no objetivo nada republicano de faturar alto.

Neste processo, o que se busca prioritariamente não é a busca pela veiculação de conteúdos pluralistas que levem à verdade e a opiniões qualificadas do seu público-alvo. ­O que se quer é atender a uma demanda de informações que se guia pelo fluxo de likes e de compartilhamentos dos consumidores, estimulados por patrocinadores sem absolutamente nenhuma preocupação com a qualidade da noticia.  

No universo das plataformas de streaming, não se falou em outra coisa nas últimas semanas a não ser no ótimo documentário “O dilema das redes”, um dos títulos mais vistos no catálogo da Netflix. Deve ser considerado. Dirigido pelo cineasta norte-americano Jeff Orlowski, o documentário foca nas aberrações cometidas pelas grandes corporações do universo das redes sociais (Facebook, Google, Instagram, Youtube, Twitter etc) que, basicamente, dedicam-se a manipular os usuários para permanecerem conectados nas suas plataformas com o objetivo de faturarem alto.

A verdade é que a lógica predatória revelada pelo documentário não é nada diferente do que ocorre, porém, com a grande imprensa comercial no Brasil e no resto do planeta. Algo natural, até certo ponto, considerando-se que vivemos em um mundo predominantemente capitalista. O problema é que há limites para o lucro. E este limite já foi ultrapassado, há muito tempo.  

É o que acontece, por exemplo, com a máquina de construção – tanto quanto de desconstrução – de reputações implantada pela mídia brasileira e potencializada enormemente pelas redes sociais, especialmente depois da criação da Operação Lava Jato, em março de 2014.

Os benefícios causados pela operação que feriu o coração da República, no quesito combate à corrupção, não justificam o ativismo do Judiciário e do Ministério Público na operação e nem as gravíssimas implicações que isso gerou a empresas (como a Petrobras) e a pessoas (como as lideranças políticas denunciadas na operação que, uma a uma, estão sendo inocentadas). 

Grande parte da mídia foi longe demais na sanha de focar sua agenda em atos de corrupção e na sua deliberada prática de satanização da classe política, tão ao gosto dos operadores do Direito que conduziram a Lava Jato.

Trago o tema à tona por dois motivos. Primeiro, porque a operação está a um degrau de terminar sem que tenha atingido seu principal objetivo: acabar com a corrupção. Na realidade, o que a sanha justiceira de Sergio Moro e de Deltan Dallagnol conseguiu – vocalizada pela grande mídia – foi apenas ampliar o descrédito nas instituições políticas, nas grandes empresas brasileiras investigadas e ajudar a afundar ainda mais a economia brasileira, já que o mercado é implacável com a imagem dos grandes players do mundo dos negócios. A roubalheira, porém, prossegue. 

O segundo motivo foi a proximidade das eleições de 2020. Será a segunda eleição na qual será possível avaliar o humor do eleitorado em relação aos que foram eleitos na onda da agenda da moralidade pública imposta pela Lava Jato, depois de 2014.

As primeiras pesquisas feitas com os principais candidatos a prefeito nas maiores cidades brasileiras, por exemplo, apontam um cenário aterrador e contraditório. O mesmo eleitorado que jogou o PT e os partidos de oposição na lona, nas eleições de 2016, está prestes a eleger muitos prefeitos e vereadores que se destacam por um populismo barato, por uma agenda retrógrada e por uma ficha corrida na Justiça que faria corar Ronald Biggs – o famoso assaltante do trem postal, ocorrido em Londres, em 1963, que depois fugiu para o Brasil.

Ou seja: a satanização da Política, somada à enraizada ignorância política de grande parte do povo brasileiro, está a um passo de repetir o que já havia acontecido em 2018: ascender ao poder aventureiros da Política iguais ou piores que os de antes.

Longe de assumir seus erros, porém, a grande mídia prossegue sua narrativa. E tende a consolidar exatamente o que condena – a eleição de arrivistas corruptos da Política – se não assumir seu papel de verdade: defende o interesse público fomentando espaço igual a todos os candidatos e promovendo debates sobre temas importantes a agenda pública. A conferir.

Foto: Tomaz Silva e José Cruz/Agência Brasil

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